
Na 2ª edição da feira Febre de Arte, realizada em Fortaleza, especialistas convocaram a população a escolher políticos comprometidos com o desenvolvimento de políticas sobre drogas que promovam a justiça social. O evento ocorreu no Anfiteatro Sérgio Motta, no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, e todos os palestrantes defenderam a importância de votar em candidatos que compreendam a complexidade do tema para formular propostas viáveis para a população.
A médica Magda Almeida, professora da Universidade Federal do Ceará (UFC), destacou a falta de entendimento sobre a questão das drogas, afirmando que a ideologia prevalente transforma o debate em uma perspectiva simplista que desconsidera os efeitos sociais e de saúde. Ela exemplificou sua experiência com pacientes no consultório, enfatizando o uso de medicamentos com potenciais efeitos colaterais, como a pregabalina, e mencionou que tratamentos com cannabis poderiam ser mais benéficos em algumas situações.
Dados da Blis Data, que possui o maior banco de informações sobre usuários de cannabis medicinal na América Latina, revelam que mulheres mais velhas e empregadas são as principais consumidoras do produto no Brasil, buscando alívio para distúrbios do sono e dor crônica. O 3º Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad III) indica que a cannabis é a substância ilegal mais consumida entre brasileiros, com aumento significativo no uso entre adultos e adolescentes nos últimos anos.
Magda Almeida também criticou a abordagem da indústria farmacêutica ao padronizar doses para tratamentos, ignorando as diferenças individuais dos pacientes. “Cannabis não serve para tudo. Nenhum remédio serve para tudo”, enfatizou.
Os debates na feira abordaram ainda as consequências sociais da política de drogas no Brasil, como a seletividade nas ações policiais e o encarceramento em massa da população negra. Segundo uma pesquisa do Datafolha, quase 69 milhões de brasileiros vivem sob a influência do crime organizado, com 55,9% nas capitais sentindo essa pressão de forma intensa.
O advogado Ítalo Coelho traçou um paralelo entre a perseguição a movimentos culturais e a repressão à cannabis, criticando a hipocrisia de um sistema que criminaliza usuários enquanto permite a venda controlada pela indústria. A cofundadora da Marcha da Maconha de Fortaleza, Tamára Silva, mencionou que a atuação da polícia se restringe à repressão e que isso contribui para o avanço de organizações criminosas no país.
A advogada antiproibicionista Bianca Cardial destacou que, enquanto o evento ocorria, pessoas ainda eram presas por pequenas quantidades de cannabis, resultando em graves consequências para suas famílias. Relatórios indicam que as famílias gastam cerca de 70% de um salário mínimo para suprir as necessidades básicas de seus entes encarcerados, totalizando aproximadamente R$ 4,33 bilhões por ano em custos relacionados ao sistema prisional.
A Febre de Arte, organizada pela Agência Liamba 360° e pela Adapta Associação Canábica, contou com a participação da Auê Feira, que trouxe experiências acumuladas em mais de 100 edições no Ceará e atraiu um público significativo. O evento teve programação diversificada, incluindo a Rua das Associações, espaço dedicado a organizações que apoiam pacientes que utilizam cannabis medicinal.
*A repórter viajou a convite da Agência Liamba 360º.



