Joaquim Arena destaca a história da Europa negra em nova obra literária
Joaquim Arena lança livro que resgata a presença de africanos na Europa e debate a migração e a identidade no Clube de Leitura em Rio de Janeiro

O escritor luso-cabo-verdiano Joaquim Arena, em sua obra Debaixo da nossa pele (2017), propõe uma nova perspectiva sobre a presença de africanos e seus descendentes na Europa, buscando revelar uma narrativa muitas vezes esquecida nas histórias oficiais. Arena explora, por meio de suas viagens por Portugal, arquivos e relatos, as trajetórias de personagens negros que permanecem no anonimato.
Natural da Ilha de São Vicente, em Cabo Verde, e filho de pai português e mãe cabo-verdiana, Arena viveu boa parte de sua vida em Lisboa, onde se formou em direito e iniciou sua carreira no jornalismo. Atualmente, ele reside na cidade da Praia, em Cabo Verde, e é autor de seis romances traduzidos para várias línguas. Em 2023, foi reconhecido com o Prémio Oceanos de Literatura pela obra Siríaco e Mister Charles.
O autor desembarcou no Rio de Janeiro para participar do Clube de Leitura do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB-RJ), que ocorrerá às 17h30 desta quarta-feira, 14. Intitulado “Romance histórico: onde a realidade encontra a ficção”, o encontro será gratuito e abordará temas como memória, identidade e as marcas do passado colonial que perduram até os dias atuais.
Cabo Verde e Brasil
Durante o evento, Arena busca conectar as experiências históricas e culturais de Cabo Verde e Brasil, países marcados por fluxos migratórios e intercâmbios culturais intensos, refletindo sobre as relações entre África e Europa. Em suas palavras, Debaixo da nossa pele explora a miscigenação e a mobilidade de povos africanos na Europa, revelando paralelos significativos com a formação da sociedade brasileira.
“Este livro retrata a condição humana de deslocamento, impulsionada por desafios econômicos, sociais e políticos. A circulação de pessoas em busca de novas oportunidades não é um fenômeno do passado; ao contrário, persiste como uma realidade contemporânea,” observa Arena.
Preenchendo vazios
Arena acredita que a história possui um apelo mais intenso do que as realidades contemporâneas. “Busco, entre os fatos históricos, os vazios que desejo preencher através da ficção. Utilizo episódios verídicos para criar personagens que refletem esses espaços,” explica.
Ao longo de sua formação, Arena teve contato com a literatura brasileira aos 12 anos, sendo impactado por autores como Jorge Amado e José Mauro de Vasconcelos. Para ele, a literatura brasileira se tornou uma janela para um universo que ecoa suas próprias experiências. “As antigas colônias portuguesas abraçam a literatura brasileira, pois ela reflete uma realidade paralela à nossa,” destaca.
“Jorge Amado, com sua Bahia, é uma influência fundamental para muitos autores lusófonos na África. Conectamo-nos também a outros gigantes, como Guimarães Rosa e Graciliano Ramos. As narrativas sobre retirantes e secas têm ressonâncias profundas em nossa própria história,” completa Arena.
Para ele, um clube de leitura representa um espaço mágico, onde se mantém viva a conexão entre autor e público. “Há um pacto entre o escritor e o leitor. O que o autor cria não existiu antes, e essa relação é ainda mais valiosa em um mundo acelerado, dominado por redes sociais e conteúdos instantâneos,” conclui.



