São Paulo se torna palco do cinema global com nova mostra internacional

Mostra Internacional de Cinema de São Paulo celebra 50 anos com exibição de 380 filmes de 93 países e diversas atividades culturais

No Museu de Arte de São Paulo (Masp), na icônica Avenida Paulista, um momento peculiar da história do cinema aconteceu em 1992. O jornalista Ubiratan Brasil, conhecido como Bira, testemunhou uma sessão da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, onde apenas 16 pessoas assistiram ao filme Cães de Aluguel, de um então desconhecido Quentin Tarantino. “O diretor estava presente e, antes da exibição, expressou sua gratidão ao público por estar ali, em um sábado ensolarado, em vez de estar ao ar livre”, recorda Bira.

A mostra, que neste ano celebra sua 50ª edição, já exibiu 11.692 filmes de 8.474 cineastas de diversas partes do mundo. Ao longo de sua trajetória, tornou-se um importante espaço para o cinema mundial, trazendo grandes nomes como Wim Wenders, Pedro Almodóvar, Manoel de Oliveira, Amos Gitai e Jafar Panahi a São Paulo.

“A mostra abriu nossos olhos para o cinema global. Antes dela, São Paulo só exibia produções hollywoodianas; assistir a um filme chinês ou cubano era quase impossível. Fui à mostra em busca de aventuras cinematográficas, mesmo que algumas sessões contassem com legendas em idiomas desconhecidos para mim”, compartilha Bira, destacando o prazer de descobrir novas obras e estilos.

Um marco cultural

A primeira edição da Mostra Internacional de Cinema aconteceu em outubro de 1977, organizada pelo crítico Leon Cakoff em comemoração aos 30 anos do MASP. Naquela época, 15 mil espectadores assistiram a 23 filmes de 17 países, em um evento que, apesar da divulgação modesta, atraiu a atenção e o entusiasmo do público.

Bira tornou-se um fiel frequentador da mostra a partir da quarta edição, e sua conexão com o evento foi tão forte que ele começou a tirar férias para explorá-lo anualmente. Já Vanda Sanae Hamanaka Serizawa, aposentada e frequentadora desde a primeira edição, recorda que o festival foi uma importante janela para o mundo em um período opressivo, proporcionando um espaço de liberdade e descoberta ao público.

“O Cakoff lidou de forma admirável com a censura da época, aprimorando a mostra a cada ano. Aqueles que vivenciaram essa experiência sempre retornavam”, relembra Vanda, que chegou a assistir sete filmes em um único dia durante uma das edições.

Vanda também destaca o impacto formativo da mostra na nova geração de cineastas e críticos, que surgiram entre seus frequentadores. “Ela sempre foi um canal para conhecer novas linguagens e imagens, muito antes da internet se popularizar”, afirma.

A confraternização entre os amantes do cinema é uma tradição que Vanda mantém. “Todo ano, organizo um jantar para discutir os filmes, mas durante a mostra todos estão focados no cinema. É um grande encontro de afetos”, observa.

Bira complementa que o festival oferece ao público uma verdadeira experiência cinematográfica, num momento em que muitas pessoas optam por assistir a filmes em casa. “Ir ao cinema está se tornando raro; a mostra oferece a chance de descobrir novos filmes e cineastas em uma sala”, ressalta.

A Mostra na Era Moderna

Desde sua criação, a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo nunca parou. Nem mesmo durante a pandemia, quando se adaptou ao formato online e a exibições drive-in para continuar levando o cinema ao público.


Renata de Almeida, diretora da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Foto: Mario Miranda Filho
Renata de Almeida, diretora da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Foto: Mario Miranda Filho

Renata de Almeida, diretora da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Foto: Mario Miranda Filho

A diretora Renata de Almeida descreve a adaptabilidade do festival: “Ele pode ser grandioso, com mais de 460 filmes em uma única edição, ou pode assumir um formato menor em tempos difíceis. O segredo é saber dançar conforme a música”, explica ela.

Neste meio século, a mostra se apresenta com uma programação robusta, exibindo 380 filmes de 93 países, além de exposições, debates e lançamentos de um acervo que celebra a rica trajetória do festival. Renata Almeida ainda publicará um livro sobre suas experiências ao longo dos 50 anos da mostra, intitulado Antes Que Eu Me Esqueça: Um Ensaio de Lembranças, que irá abordar não apenas as histórias do evento, mas também seu próprio percurso pessoal junto ao festival. “É um livro de encontros, um convite à memória”, sublinha Renata, que participa do evento desde 1989, quando a mostra estava em sua 13ª edição.

“Estou aqui há 37 anos, e esse evento se tornou parte da minha vida”, conclui Renata, refletindo sobre a importância da mostra para o cenário cultural de São Paulo.

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