Quilombolas lutam por reparação após 20 anos de expulsão por mineradora
Quilombolas de Paracatu buscam reparação de até R$ 1,2 bilhão após 20 anos de desterritorialização por mineradora canadense Kinross Gold


Em Paracatu, Minas Gerais, comunidades quilombolas buscam justiça e reparação por danos socioambientais causados pela mineração. Claudinês Lopes, de 32 anos, relembra a avó Antônia, uma plantadora de algodão que morreu sem ver sua luta por direitos reconhecida. A pressão da Kinross Gold Corporation, que instalou uma mina de ouro e prata chamada Morro do Ouro em suas terras, levou à perda de habitat e à desestruturação social de cerca de 1,3 mil famílias das comunidades de Machadinho, Amaros e São Domingos.
Recentemente, o procurador regional da República, José Adércio Leite Sampaio, esteve na cidade para discutir um possível acordo com a multinacional. O objetivo é garantir reconhecimento oficial das comunidades, direitos territoriais e critérios para indenizações e reassentamentos. Sampaio destacou a importância de construir uma solução que dignifique e repare essas populações.
“O Ministério Público Federal está empenhado em garantir a reparação integral a essas populações que tiveram seus territórios invadidos e seus modos de vida fragmentados”, afirmou o procurador.
O advogado Guilherme Bicalho, representante das comunidades, expressou preocupação com o julgamento recente que teve dois votos desfavoráveis para as indenizações. Com a expectativa de um acordo até novembro, o valor estimado da reparação pode variar entre R$ 500 milhões e R$ 1,2 bilhão.
A mineradora, que registrou lucro líquido de US$ 2,39 bilhões em 2025, possui uma estrutura com capacidade para armazenar 750 milhões de metros cúbicos de rejeitos, um volume alarmante que é mais de 60 vezes o da infame barragem de Brumadinho que colapsou em 2019. Os impactos ambientais são evidentes, com moradores relatando problemas de saúde associados à poluição gerada pelas operações mineradoras.
“Avaliações técnicas detectaram níveis elevados de arsênio nas amostras de urina de moradores próximos à mina”, informou o Ministério Público Federal.
A comunidade de Machadinho, que já foi reconhecida pela Fundação Cultural Palmares, enfrenta desafios contínuos desde a desapropriação de suas terras e a migração forçada. Hoje, Claudinês vive a cerca de 10 quilômetros do antigo território e denuncia a vulnerabilidade social em que muitas famílias se encontram, dispersas pela cidade e municípios adjacentes.
A história de resistência se repete em outras comunidades. Maria Hermínia Rodrigues, professora e presidente da associação de moradores da comunidade de Amaros, enfatiza a importância da educação e da preservação cultural. “As celebrações das nossas tradições, como a caretagem, são uma forma de resistência e identidade que precisamos manter vivas”, afirma.
Enquanto isso, a Kinross se posiciona, afirmando que respeita o processo judicial e mantém diálogo com as comunidades afetadas. Em resposta, o Incra reitera seu compromisso com a regularização de terras quilombolas, ainda em trâmite.
As vozes dessas comunidades ecoam um desejo comum: justiça e reparação por um passado que ainda impacta severamente suas vidas. A luta está longe de terminar, mas a esperança de um futuro mais justo continua a brilhar na memória dos que se foram e na determinação dos que permanecem.



