Sarampo avança nos EUA devido ao negacionismo e acende alerta para o Brasil
Surto de sarampo nos EUA, impulsionado por discursos antivacinais, levanta preocupações sobre a vacinação no Brasil diante de crescente desinformação


Os Estados Unidos enfrentam o pior surto de sarampo em mais de 30 anos, com mais de 4,4 mil casos confirmados e três mortes registradas apenas neste ano. A maioria dos infectados (98%) não estava totalmente vacinada. Esse aumento alarmante é atribuído, em parte, a mudanças recentes no calendário vacinal, promovidas durante o governo de Donald Trump, que incentivaram discursos antivacinação e desinformação sobre a importância da imunização.
De acordo com Eder Gatti, diretor do Programa Nacional de Imunizações do Brasil, o que ocorre nos EUA representa um retrocesso que pode afetar toda a América. Ele alerta que os discursos negacionistas têm consequências severas. “A vacina contra o sarampo é uma vacina de bloqueio. Quem se vacina não contrai nem transmite a doença. A alta contaminação nos EUA está diretamente relacionada a esse clima de desconfiança”, complementa.
Impacto Internacional
No Brasil, o cenário é preocupante, embora o país tenha visto apenas 61 casos de sarampo este ano, a maioria proveniente de outras nações. Desde 2024, o Brasil não registra transmissão sustentada da doença, o que lhe garante a certificação como área livre do sarampo. No entanto, manter esse status é desafiador. Gatti lembra que o Brasil perdeu essa certificação em 2019 devido ao ressurgimento da doença, que em 2018 resultou em cerca de 19 mil casos no país.
As taxas de vacinação têm melhorado nos últimos anos, com coberturas preliminares de 95% para a primeira dose e 80% para a segunda em 2023. Contudo, Gatti afirma que o Brasil precisa continuar vigilante, especialmente diante do aumento dos casos no hemisfério ocidental, onde a Organização Panamericana de Saúde reporta mais de 56 mil infecções e ao menos 80 mortes.
Desafios na Vacinação
As novas diretrizes do governo dos EUA, que reduziram o número de vacinas recomendadas para crianças de 17 para 11, também têm gerado preocupação. A separação da vacina tríplice viral em imunizantes distintos foi criticada por especialistas brasileiros, como Juarez Cunha, diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm). Ele destaca que esse tipo de decisão não é respaldada pela ciência e tem causado confusão entre a população. Enquanto isso, a Academia Americana de Pediatria mantém a recomendação original.
“A confiança é fundamental para o sucesso da vacinação. Mudar as recomendações sem base científica prejudica a credibilidade das vacinas”, afirma Cunha.
A vigilância no Brasil tem sido eficaz, com alertas e ações rápidas sempre que surgem suspeitas de sarampo. No estado de São Paulo, onde a maioria dos casos tem sido confirmada, quase 4 milhões de doses extras foram aplicadas apenas este ano, enquanto o Amazonas já superou 192 mil doses.
Entretanto, Cunha adverte que o risco de surtos não deve ser subestimado. Mesmo sem transmissão atual, o Brasil precisa manter as taxas de vacinação altas para proteger, principalmente os grupos mais vulneráveis, como crianças e populações indígenas.
Influência da Desinformação
A desinformação que permeia o debate sobre vacinação não é exclusiva dos EUA, mas ressoa em países como o Brasil, especialmente através das redes sociais. A justificativa da separação das vacinas em doses distintas, feita por Trump, que prometeu reduzir casos de autismo, é infundada. Estudos têm desconfirmado tal associação.
Além disso, a recente ordem que reduziu a aplicação da vacina contra a hepatite B ao nascimento tem causado hesitação entre alguns pais, potencialmente expondo recém-nascidos a riscos ainda mais altos.
“A hepatite B pode se tornar crônica, especialmente em crianças, e a chance de complicações graves é significativa. A vacinação é um escudo essencial para protegê-las”, conclui Cunha.



