Um ano após a Operação Contenção, investigações sobre mortes seguem sem conclusão
Um ano após a Operação Contenção, investigações sobre as 121 mortes permanecem inconclusivas, gerando clamor por justiça e accountability na segurança pública do Rio


A madrugada de 28 de outubro de 2025 marcou um momento trágico e intenso no Rio de Janeiro, quando mais de 2,5 mil policiais civis e militares realizaram uma operação nos complexos de favelas do Alemão e da Penha. O evento, que rapidamente se tornaria a mais letal da história das operações policiais na cidade, resultou em um saldo devastador: até 29 de outubro, 121 vidas haviam sido perdidas, incluindo cinco policiais. O número de policiais mortos aumentou para cinco em 22 de novembro, devido a um ferido que não sobreviveu.
Ao longo do dia, o que se presenciou foram horas de violentos confrontos armados, incêndios em ônibus e a avançada incursão dos policiais pelas vielas da favela. Imagens de corpos alinhados nas ruas da Vila Cruzeiro rapidamente se espalharam pelo mundo, com a polícia afirmando que as 117 vítimas civis morreram em troca de tiros com os agentes. Entretanto, relatos de moradores contradizem essa narrativa, ao apontar para torturas e execuções. Relatos de abusos e violações foram amplamente reportados.
Operação Contenção
Denominada de “megaoperação”, a ação tinha como objetivo a captura de líderes de facções criminosas do Rio de Janeiro. A operação, intitulada Contenção, havia sido planejada meses antes e visava desarticular o Comando Vermelho, uma das facções mais poderosas do estado. O governo do Rio descreveu a operação como uma ação estratégica para deter o avanço criminal nos complexos.
Investigação das Mortes
Um ano após a operação, a incerteza persiste sobre as circunstâncias das mortes e sobre quem de fato é responsável. O promotor de Justiça Fabio Correa, coordenador do Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública do MPRJ, destaca que a tragédia configura um evento inédito na segurança pública carioca. Segundo Correa, até o momento, 255 policiais e 61 detidos foram ouvidos, e o MPRJ ainda está analisando laudos periciais e imagens das câmeras corporais dos agentes. Embora o total de horas de gravação chegue a 4 mil, a duração das operações fez com que parte das gravações fosse perdida devido ao esgotamento das baterias.
Casos Atípicos
Na reconstituição das mortes, dois casos se destacam como “atípicos”: um assassinato por disparo a curta distância e outro de decapitação. Correa ressalta que, por não ter sido possível realizar perícia no local dos crimes, a compreensão sobre o que ocorreu em casos como esses se torna mais complexa.
Irregularidades e Conflito de Direitos
Além dos abusos denunciados, investigações do MPRJ revelaram que, até junho de 2026, 27 policiais foram denunciados por crimes variados, incluindo desvio de fuzis e invasão de domicílios. Número significativo de câmeras corporais foi desligado intencionalmente, o que levanta ainda mais questões sobre a transparência da operação. Um estudo indicou que 17% dos equipamentos usados pelo BOPE foram desligados deliberadamente.
Reação e Relatos de Direitos Humanos
O relatório da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) criticou a operação, descrevendo a estratégia militar utilizada como “martelo e bigorna”, que confina os criminosos e reduz as rotas de fuga, mas resulta em elevado número de vítimas. Relatos de armazenamento inadequado de corpos e restrições de acesso aos laudos de autópsia agravaram a situação. Dos 99 detidos, 17 apresentaram ferimentos e outros 36 mostraram sinais de maus-tratos.
Além disso, a discrepância no número de mortes de policiais (cinco) em relação aos civis (117) evidenciou graves questões sobre a capacidade da polícia em conduzir operações que respeitem a vida humana. A CIDH afirma que as investigações de violência policial no Brasil, especialmente no Rio de Janeiro, carecem de estrutura e imparcialidade adequadas.
Um ano depois: O Futuro Inalterado
Pesquisadores afirmam que, apesar da magnitude da operação, o controle territorial do Comando Vermelho permanece praticamente inalterado. A opinião predominante é que a operação apenas perpetuou o trauma na comunidade, sem proporcionar mudanças significativas na segurança ou na vida dos moradores.
Maria Isabel Couto, do Instituto Fogo Cruzado, enfatiza que a situação permanecia a mesma, com o poder público tratando as vidas dos civis como dispensáveis. Carolina Grillo, pesquisadora da UFF, complementa que a operação foi marcada por um planejamento inadequado, colocando em risco não só os moradores, mas também os próprios policiais. A busca por respostas e justiça para o que ocorreu na vindoura operação Contenção continua.
A Agência Brasil tentou contato com representantes das forças policiais e da Secretaria de Segurança Pública, porém, a maioria não respondeu aos pedidos de entrevista. A clamoria por justiça e mudança na política de segurança pública no Rio de Janeiro permanece viva entre os moradores e defensores dos direitos humanos.
*Repórter da TV Brasil.



