EconomiaMundoSaúdeTecnologiaTrabalho

COP17 adia criação de acordo global para combate às secas

COP17 adia novamente acordo global para combate às secas, refletindo a falta de consenso entre países e desafios geopolíticos persistentes

A 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17), que ocorre em Ulaanbaatar, na Mongólia, não alcançará um acordo sobre a criação de um regime global para enfrentar as secas. Apesar de declarações otimistas, negociadores indicam que a falta de consenso é evidente. O evento, que se encerra nesta sexta-feira (28), já contou com a retirada de alguns países do debate, incluindo os Estados Unidos e a União Europeia, que são os principais opositores à proposta, apoiada por nações como o Brasil.

A conferência resultou em um acordo procedural, adiando novas discussões sobre o tema para a COP18, prevista para 2028, possivelmente no Egito. Essa situação se repetiu na COP16, realizada em Riad, onde também não houve consenso. O Brasil defende a criação do regime, mas reconhece que, diante da falta de acordo, é melhor manter o tema na pauta das próximas conferências.

Durante a semana, a mediação do Brasil e da Arábia Saudita foi crucial, já que os EUA buscavam excluir o assunto dos documentos oficiais, enquanto países africanos demandavam a implementação do mecanismo. A proposta é uma reivindicação histórica dos países africanos, que enfrentam escassez hídrica e a expansão de desertos, e que buscam um mecanismo multilateral para enfrentar a questão.

Esses países ressaltam a necessidade de assistência financeira para lidar com eventos extremos, enquanto os países mais ricos evitam compromissos obrigatórios e preferem uma adesão voluntária. A União Europeia, por exemplo, se recusa a gastar recursos em crises externas, uma vez que enfrenta problemas semelhantes em seu próprio território.

O clima geopolítico atual também traz desafios para a negociação, com alguns países, liderados pelos EUA, atuando para enfraquecer as agendas multilaterais desde o início da COP17. Apesar das dificuldades, Andrea Meza Murillo, secretária executiva adjunta da UNCCD, expressou esperança em um possível acordo, enfatizando a importância da colaboração internacional para abordar esse desafio global.

Ela destacou que uma sociedade civil ativa e o setor privado têm papéis essenciais para impulsionar soluções, especialmente em um contexto que dificulta acordos mais ambiciosos.

Relatórios da UNCCD revelam que a frequência e a intensidade das secas aumentaram cerca de 30% desde 2000, afetando vários continentes, incluindo Europa, África, Ásia e América Latina. Daniel Tsegai, coordenador do grupo de trabalho sobre seca da UNCCD, alertou que a abordagem atual, que trata a seca como um evento imprevisível, precisa ser revista, defendendo uma gestão preventiva e contínua do problema.

A ausência de chuva agora é vista como um risco sistêmico, impactando setores como transporte, saúde e comércio global, e necessitando de uma resposta coordenada entre os países. Tsegai enfatizou a urgência de mudanças nas políticas globais e a importância de se preparar para a seca antes que ela aconteça.

Enquanto as discussões sobre um regime global enfrentam incertezas, novas iniciativas de financiamento estão avançando. A Aliança de Riad para Resiliência Global à Seca anunciou um fundo para ajudar 70 países em desenvolvimento, incentivando a adaptação ao fenômeno seco, com um investimento inicial da Arábia Saudita de US$ 150 milhões, além de promessas de aporte de até US$ 2 bilhões de outras instituições.

Além disso, a COP17 lançou a Fase 2 do Observatório Internacional de Resiliência à Seca, uma plataforma desenvolvida pela UNCCD, que visa ajudar os países a monitorar riscos e implementar políticas eficazes contra secas. A iniciativa usa inteligência artificial para fornecer dados complexos, promovendo uma abordagem mais informada e adaptativa às secas.

O repórter viajou para a Mongólia a convite da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD), após seleção entre jornalistas de diversos continentes.

Mostrar mais

Artigos relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo