

Kaio, de 42 anos, expressou um “grande alívio” ao receber a notícia de que as operações de apostas online foram proibidas no Brasil, conforme anunciado na última sexta-feira (25). Ele relata que as dívidas de jogo o levaram a perder seu carro, sua casa e até mesmo seu emprego, obrigando-o a recomeçar a vida em um dormitório no interior de Goiás.
No dormitório, Kaio dorme no chão e, devido a dívidas com agiotas, afastou-se da família por questões de segurança. Ele admite que seu vício em jogos transformou sua vida nos últimos seis anos. Para lidar com essa situação, ele buscou ajuda em um Centro de Atenção Psicossocial (Caps), onde participa de grupos terapêuticos e consultas médicas. Atualmente, toma três medicamentos diariamente.
A Medida Provisória 1394, que proíbe as bets no país, foi assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e revoga dispositivos da Lei 13.756, aprovada em dezembro de 2018, que regulamentava essas plataformas. Embora a lei tenha sido aprovada em 2018, as operações de apostas funcionaram sem regulamentação clara até dezembro de 2023, permitindo que as empresas atuassem sem regras suficientes durante esse período.
A psiquiatra Katia Branco, supervisora do Grupo Pro-Amiti no Hospital das Clínicas de São Paulo, observa que pessoas em situação de vulnerabilidade são as mais afetadas pelo vício em jogos, frequentemente enganadas por publicidade que sugere que apostar pode ser uma forma de complementar a renda. Em 2025, as famílias brasileiras perderam R$ 62,5 bilhões nas apostas, significando uma média de R$ 4,7 bilhões por mês.
As apostas online, que facilitam o jogo a qualquer hora, geraram preocupações, especialmente entre jovens. Um estudo revelou que 20,4% dos estudantes do ensino fundamental e médio já realizaram apostas online, com casos começando desde os 11 anos de idade. Especialistas alertam para a vulnerabilidade dos jovens, cujos cérebros ainda estão em desenvolvimento, tornando-os mais propensos a impulsos e riscos associados aos jogos.
A condição dos apostadores muitas vezes leva a sinais de desespero e até pensamentos suicidas. Katia Branco afirma que deve-se prestar atenção em falas relacionadas à desistência da vida e buscar ajuda. Profissionais da área de saúde reforçam que o acesso das pessoas a apostas estava facilitado e que a ajuda profissional é essencial para lidar com essa dependência.
Com a proibição das bets, o Ministério da Saúde anunciou planos para contatar apostadores contumazes e oferecer suporte e tratamento adequados, utilizando dados de diferentes ministérios. A expectativa é que essa ação contribua para a redução dos problemas de saúde pública relacionados ao vício em apostas.
*Nomes fictícios a pedido dos entrevistados.



