

Jacklline de Oliveira, de 45 anos, e Luciano Gonçalves, de 49, lembram com dor do último aniversário da filha, Kathlen Romeu, que completaria 30 anos no próximo sábado (3). A jovem foi assassinada em 2021, grávida de quatro meses, em uma ação policial no Lins de Vasconcelos, na Zona Norte do Rio de Janeiro. Ela foi baleada quando visitava a avó e não sobreviveu, assim como seu bebê.
“Kathlen era uma filha intensa e amorosa”, recorda Jacklline. Desde sua juventude, Kathlen sonhava em se tornar modelo e havia se esforçado para financiar seu primeiro apartamento, do qual nunca chegou a desfrutar. O grave incidente que levou à sua morte ocorreu pouco depois de sua comemoração de 24 anos, repleta de alegria e amor familiar.
“O Estado mata a gente diariamente há cinco anos e três meses”, desabafa Jacklline. “Não tem um dia que eu não me sinta ganhando um tiro de fuzil”.
Kathlen e sua avó foram atingidas por disparos realizados por policiais militares, que alegaram estar perseguindo criminosos, uma versão até hoje não comprovada. Após anos de luta por justiça, os policiais Rodrigo Correia de Frias e Marcos Felipe da Silva Salviano estão marcados para julgamento no dia 26 de novembro, no Tribunal do Júri. A defesa dos policiais não foi contatada para comentar o caso até o fechamento desta reportagem.
Os agentes, que anteriormente foram absolvidos da acusação de fraude processual, foram posteriormente denunciados pela promotoria. Apesar das condenações, eles respondem em liberdade e estão afastados de suas funções. Enquanto esperam justiça, Jacklline e Luciano pressionam por uma mudança nas políticas de segurança pública, que protegeriam vidas em vez de as ceifarem.
“Se esses policiais não forem punidos, a sociedade civil também estará matando Kathlen e seu bebê”, afirma Jacklline, que mantém a memória da filha viva através de fotos e lembranças.
Jacklline está em terapia para lidar com a dor, enquanto Luciano cursa psicologia. Ambos se tornaram vozes ativas na luta contra a letalidade policial, enfatizando a importância de reformas que garantam a vida e dignidade dos jovens, especialmente os da população negra e periférica. Em 2025, dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública indicaram que 798 pessoas foram mortas pela polícia no estado, refletindo uma alarmante realidade de violência.
O caso de Kathlen gerou mobilização e clamor social, com a família passando por descontentamento em relação ao sistema judicial, que inicialmente parecia negligenciar a gravidade do caso. Jacklline e Luciano fazem questão de que a memória da filha permaneça viva, não apenas como uma tragédia pessoal, mas como um símbolo da necessidade de mudanças significativas nas abordagens de segurança pública no Brasil.
A espera pelo julgamento de cinco anos foi marcada por angústia, mas também por esperança de que a sociedade civil se mantenha unida e não compactue com a impunidade. “A nossa luta é pela memória, reparação e justiça, mas em prol de uma juventude viva”, conclui Jacklline, com determinação. “Queremos que nenhuma outra família passe pela dor que estamos vivendo.”



