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Moradores da Maré promovem iniciativa para informar sobre locais de votação

Moradores da Maré se mobilizam para informar sobre novos locais de votação e buscar reduzir a alta taxa de abstenção nas eleições

“Pensei em todo momento em desistir.” A frase é de Marlon Soares, fotógrafo e morador do Complexo da Maré, um conjunto de 16 comunidades na zona norte do Rio de Janeiro que abriga cerca de 140 mil pessoas. Sua declaração reflete a frustração e a dificuldade enfrentada para votar no primeiro turno das eleições gerais, que ocorreu em 4 de outubro. Ele é um dos quase 17 mil eleitores da Maré que tiveram seu local de votação alterado em relação à eleição anterior, em 2024.

“Estou muito incomodado com essa decisão de mudança de local de votação”, comenta Marlon à Agência Brasil. Ele explica que sempre votou no mesmo local de sua família, que era de fácil acesso e não apresentava filas. No entanto, ao se dirigir ao novo endereço, se deparou com “filas gigantescas”.

“Me jogaram para outro bairro. Tive que pegar condução e fiquei mais de duas horas na fila para conseguir votar”, relata.

Alterações no local de votação

A mudança nos locais de votação, determinada pelo Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ), teve como foco a segurança dos eleitores. Este ano, 72 locais, que afetam aproximadamente 202 mil eleitores em 20 cidades, incluindo a capital, foram alterados, com o objetivo de transferir seções eleitorais de áreas de alto risco ou dominadas por organizações criminosas.

No Complexo da Maré, 16.907 eleitores estão vinculados a 41 seções da 161ª Zona Eleitoral, segundo informações do TRE-RJ. As principais alterações na região incluem:

  • 7.268 eleitores da Escola Municipal Professor Josué de Castro agora votam no Centro Educacional Gama E Souza;
  • 4.907 eleitores da Escola Municipal Teotônio Vilela foram transferidos para o Bonsucesso Futebol Clube;
  • 4.732 eleitores da Escola Municipal Professor Paulo Freire agora votam na Igreja Nossa Senhora de Bonsucesso de Inhaúma.

No segundo turno, apenas um novo endereço será contabilizado no Rio, no bairro Brás de Pina, junto a cinco seções eleitorais, segundo o TRE-RJ.

Impacto da mudança na abstenção

O levantamento da Agência Brasil revelou que a abstenção nas 41 seções da Maré que tiveram o endereço transferido chegou a 31,07%, acima da média nacional de 21,08%. Um estudo da ONG Redes da Maré associa essa abstenção a barreiras de acesso criadas pelos deslocamentos para locais de votação fora do território.

Em relação à data da votação, o TRE-RJ não apontou a mudança de local como causa para um aumento na abstenção. Antes da votação, os órgãos de justiça eleitoral aconselharam os eleitores a verificar o novo endereço de seus locais de votação. Para facilitar o acesso, o transporte público foi disponibilizado gratuitamente no dia da votação, conforme a Resolução 23.759/2026 do Tribunal Superior Eleitoral.

Além disso, o TRE-RJ ofereceu transporte especial para eleitores com mobilidade reduzida no Complexo da Maré, embora a demanda tenha sido baixa.

Mobilização para aumentar a participação

Para combater a abstenção, a Redes da Maré organizou a mobilização Esquinas por Direitos, que ocorre de 20 a 23 de outubro, com o intuito de conscientizar a comunidade sobre a importância do voto. A ONG também utiliza suas redes sociais para divulgar informações sobre a votação, como que aqueles que não participaram do primeiro turno poderão votar normalmente no dia 25.

“Antes de sair de casa, confira seu local de votação e a situação do seu título eleitoral”, alerta uma das postagens, lembrando que, neste segundo turno, não haverá votação para governador, o que pode reduzir as filas para os eleitores.

Reflexões sobre a acessibilidade e a mobilidade urbana

O estudo da Redes da Maré indica que a abstenção deste ano foi maior do que nos 28% registrados em 2024, quando também ocorreram mudanças significativas nos locais de votação. Segundo a instituição, nos últimos quatro anos, metade dos eleitores da Maré passou a votar em novos locais.

As alterações nos pontos de votação têm consequências diretas em questões de acessibilidade e mobilidade urbana, exigindo que muitos moradores percorram distâncias maiores para exercer seu direito ao voto. Isso impacta principalmente grupos vulneráveis, como jovens, mulheres chefes de família, pessoas idosas e com deficiência.

A analista de Incidência Política da Redes da Maré, Lia Manso, ressalta a importância da participação democrática e do voto. “O voto é um direito arduamente conquistado e reafirmado em um contexto de redemocratização. A luta por ele não terminou”, afirma à Agência Brasil. Manso destaca que muitos moradores da Maré vivem em condições de precariedade em diversos direitos, incluindo o acesso à segurança pública e à educação.

“O trabalho da Redes da Maré é estar nas ruas, debatendo a importância do voto e da participação democrática, reafirmando que nosso voto importa, não apenas como um direito individual, mas também por seu impacto coletivo no território e na vida das pessoas”, conclui.

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