

Os Estados Unidos enfrentam seu mais grave surto de sarampo em mais de 30 anos, com mais de 4,4 mil casos confirmados e três mortes somente neste ano. O alarmante cenário, onde 98% dos infectados não estavam totalmente vacinados, é exacerbado por mudanças recentes no calendário vacinal, impulsionadas pela retórica antivacinação do governo de Donald Trump.
Eder Gatti, diretor do Programa Nacional de Imunizações do Brasil (PNI), alerta que o período observado nos EUA representa um retrocesso que pode impactar todo o continente americano. “O governo americano, ao apoiar discursos negacionistas, conta com um secretário de Saúde que é declaradamente antivacina”, frisou Gatti, enfatizando o perigo dessa estratégia.
“Espero que o mundo não considere isso um exemplo. Eles estão enfrentando as consequências. A vacina contra o sarampo é eficaz na proteção, evitando a infecção e a transmissão. O aumento de casos nos EUA está intimamente ligado a esse discurso negacionista”, completou.
A Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) também sinaliza a gravidade da situação, com casos de sarampo no continente superando 56 mil, resultando em 80 mortes. Em contraste, o Brasil, que registrou 61 casos em 2023, tem mantido sua certificação como área livre da doença, embora o desafio de preservar esse status seja constante. “Desde 2016, quando reconquistamos o certificado, enfrentamos dificuldades devido à reintrodução da doença, especialmente no Norte, em um grande surto em São Paulo com 19 mil casos”, lembra Gatti.
Casos Importados e Medidas no Brasil
Apesar da certificação brasileira, as autoridades enfrentam a pressão do aumento de casos importados. As vacinas estão sendo reforçadas, com quase 4 milhões de doses adicionais aplicadas em São Paulo neste ano e 192 mil no Amazonas, que também reportou casos recentes. “Em 2024, os índices de vacinação da tríplice viral foram de 96% na primeira dose e 78% na segunda; esperemos que este cenário se mantenha, pois a vacinação é crucial para proteger as populações mais vulneráveis”, disse Gatti.
Perda de Confiança nas Vacinas
Um fator crítico para a crise nos EUA é a recente redução de vacinas recomendadas pelo governo, passando de 17 para 11, além da proposta de fracionar a vacina tríplice viral em três imunizantes separados. Juarez Cunha, diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações, observa que essas mudanças, motivadas por questões políticas e sem embasamento científico, geram confusão e prejudicam a confiança da população na vacinação.
“A Academia Americana de Pediatria ainda recomenda as vacinas como antes, mas há um órgão governamental promovendo alterações que minam a confiança necessária para o sucesso das campanhas de vacinação”, avaliou Cunha.
A resposta rápida das autoridades brasileiras em identificar e bloquear casos suspeitos de sarampo é um esforço que tem se mostrado eficaz, ainda que custoso. Sempre que há suspeitas, as autoridades são acionadas para confirmar infecções e monitorar contatos dos doentes, além de intensificarem as campanhas de vacinação nas comunidades.
O Impacto da Desinformação
A desinformação gerada por discursos antivacinais, como os feitos por Trump, também ressoam em solo brasileiro, especialmente nas redes sociais. A manutenção da vacinação contra hepatite B para recém-nascidos, por exemplo, está mudando em resposta a diretrizes norte-americanas, levando pais a hesitar em vacinar seus filhos. “Em adultos, a chance de um caso agudo não se tornar crônico é de 90%, enquanto nas crianças ocorre o inverso”, alertou Cunha.
A luta contra o sarampo e a promoção da vacinação representam não apenas uma questão de saúde pública, mas um compromisso coletivo em garantir a proteção de todos, especialmente dos mais vulneráveis.



