Ex-jogadoras da seleção de futebol motivam estudantes em escolas do Rio
Ex-jogadoras da seleção brasileira feminina de futebol inspiram alunas e abordam desafios enfrentados por mulheres no esporte durante evento em escola do Rio

Em um vibrante dia de atividades esportivas, a Escola Municipal Juan Antonio Samaranch, localizada em Santa Teresa, no coração do Rio de Janeiro, transformou seu campo de futebol em um espaço exclusivamente feminino. Na tarde da última quarta-feira (21), quatro times de garotas bateram bola em um minitorneio, atraindo a atenção de ex-jogadoras da seleção brasileira, enquanto os meninos apenas observavam das arquibancadas.

Essa empolgante iniciativa faz parte do programa Pioneiras nas Escolas, que leva grandes nomes do futebol feminino a escolas da rede pública carioca, promovendo o esporte e a inclusão.
A abertura do evento reuniu mais de 100 alunas em um auditório, onde puderam ouvir as experiências e histórias de motivação de ícones como Marisa Pires, Maria Lúcia Lima e Marilza Martins, conhecidas carinhosamente como Caju, Fia e Pelezinha.
Além de relatos inspiradores, as jovens atletas tiveram a oportunidade de se aprofundar nas dificuldades enfrentadas por essas pioneiras, que, apesar do preconceito e do machismo, conseguiram representar o Brasil nas décadas de 1980 e 1990, logo após a proibição do futebol feminino ser revogada em 1979. A proibição foi um marco controverso, estipulada por um decreto que via a prática como incompatível com a natureza feminina.
A estudante Nicoly Melo, de apenas 12 anos, não escondeu a surpresa ao ouvir sobre essa proibição: “Por que não podiam?”, questionou, visivelmente incrédula.
A regulamentação do futebol feminino só ocorreria em 1983, e a primeira seleção brasileira participaria de uma competição experimental em 1988, na China. Três anos depois, o mundo veria a primeira Copa do Mundo feminina acontecer também na China, e o futebol feminino estrearia nos Jogos Olímpicos em 1996, em Atlanta, nos Estados Unidos.
Desafios do Passado
Fia, aos 62 anos, recordou as barreiras enfrentadas durante sua trajetória. Ela ressaltou a presença do machismo no cotidiano e a forma como confiava em sua habilidade.
“Sempre joguei com menino. Tinha talento. Não queria saber de machismo”, contou a ex-atleta ao público jovem.
Com cinco anos na seleção, Fia se destacou como tricampeã continental e foi uma das integrantes do primeiro grupo que disputou uma Copa do Mundo e uma olimpíada.
Caju, aos 60 anos, trouxe à tona algumas das provocações machistas que sofreu durante sua trajetória, lembrando que ouvia comentários como “mulher não serve para jogar futebol” enquanto atuava.
“Aquelas palavras mexiam com nosso ego, e a gente queria, mais e mais, mostrar que mulher sabe jogar futebol”, desabafou a atual árbitra de partidas.
A coordenação do projeto Pioneiras nas Escolas está a cargo de Duda Luizelli, também ex-jogadora da seleção, que enfatizou a importância do incentivo ao estudo junto ao esporte.
“O estudo é fundamental, pois até quem se torna atleta tem uma carreira curta. Com 38, 39 anos, nosso tempo no esporte acaba, e precisamos saber o que fazer a seguir”, destacou Duda, que também é bicampeã sul-americana.
Compromisso com a Educação e o Esporte
A Secretaria Municipal de Educação (SME) do Rio de Janeiro apoia o projeto. A escola Juan Antonio Samaranch é reconhecida como um Ginásio Experimental Olímpico (GEO). Este status, que data de 2012, garante que a instituição promova ensino integral com ênfase em práticas esportivas.
Com cerca de 600 estudantes de 11 a 15 anos, a escola conta com treinadores em 19 modalidades esportivas. Segundo a prefeitura, a iniciativa se conecta ao legado olímpico deixado pelos Jogos Rio 2016, com a cidade tendo atualmente 12 GEOs.
A coordenadora de Projetos Integradores da SME, Caroline Guedes, ressalta a importância do Pioneiras nas Escolas como preparação para a Copa do Mundo feminina que ocorrerá entre junho e julho de 2027, quando o Rio será uma das sedes.
“É crucial que estejamos nos preparando para esse evento, especialmente dentro do nosso primeiro ginásio olímpico, que é fundamental para nossa rede”, afirmou.
Letícia Pereira, aluna do 9º ano, de 15 anos, expressou sua empolgação ao receber as ex-jogadoras em sua escola, considerando a oportunidade uma inspiração: “É meio caminho andado para as alunas, pois mostra que o esporte também pode oferecer um futuro”, declarou, assegurando presença garantida nos jogos da Copa do Mundo no próximo ano: “Meu pai me leva lá, eu fico lá torcendo”, declarou à Agência Brasil.



