Ex-balconista de farmácia lidera movimento por jornada de trabalho reduzida
Movimento liderado por ex-balconista busca garantir direitos trabalhistas com jornada semanal de 40 horas e dois dias de descanso seguido da aprovação da emenda constitucional


No dia 16 de agosto, o Congresso Nacional promulgou a Emenda Constitucional 141/2026, um marco para os trabalhadores brasileiros. A nova legislação estabelece que, a partir de dezembro deste ano, todos os trabalhadores terão direito a dois dias de descanso por semana, abolindo a anterior jornada de trabalho 6×1 e representando uma mudança significativa nas relações trabalhistas no país.
A origem dessa emenda remonta à proposta de emenda à Constituição 221/2019, elaborada pelo deputado Reginaldo Lopes (PT-MG) em 11 de dezembro de 2019. Após três anos de estagnação na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, um movimento popular encabeçado por Rick Azevedo começou a ganhar força, trazendo à tona a discussão sobre jornadas de trabalho excessivas.
Este movimento, chamado Vida Além do Trabalho (VAT), surgiu em um momento em que Azevedo, um balconista de farmácia, utilizou as redes sociais para expor sua rotina desgastante de trabalho, que limitava seu descanso a apenas um dia por semana.
Impulsionado por essa realidade, Rick Azevedo se tornou uma voz ativa na luta contra a jornada 6×1. A PEC 221/2019 propunha uma redução da carga horária semanal de 44 para 36 horas e inspirou a criação da PEC 8/2025, liderada pela deputada Erika Hilton (PSOL-SP) e apoiada por mais de 200 parlamentares. Ambas as propostas foram unificadas, culminando na emenda agora promulgada que define uma jornada máxima de 40 horas semanais.
A trajetória de Rick Azevedo não parou por aí. Em 2024, ele foi eleito vereador no Rio de Janeiro e, em 2026, se tornou o segundo deputado federal mais votado do estado, com 191.371 votos, evidenciando a força de sua mobilização.
A Agência Brasil conversou com o recém-eleito deputado Rick Azevedo sobre a luta pela redução da carga horária, seu papel como militante e o futuro das conquistas trabalhistas. Confira a entrevista:
Agência Brasil: Conte-nos sobre sua história pessoal e profissional.
Rick Azevedo: Eu sou um balconista de farmácia e um trabalhador brasileiro. Sou um homem negro, migrante, e como muitos, busquei oportunidades no Rio de Janeiro. Minha história é a de milhões que acordam cedo, enfrentam transportes lotados e muitas vezes precisam escolher entre descansar e estar com seus entes queridos. Conheço bem a rotina da escala 6×1 e sei o que significa perder momentos importantes por causa do trabalho. Hoje, sou deputado, mas continuo sendo aquele mesmo balconista que luta por melhores condições de vida para os trabalhadores.
Agência Brasil: O que motivou a criação do Movimento Vida Além do Trabalho?
Rick Azevedo: O VAT nasceu da minha indignação com a rotina de trabalho. Trabalhar seis dias e ter apenas um para resolver a vida não é viver, é sobreviver. Comecei a gravar vídeos sem nenhuma estrutura, apenas desabafando. Para minha surpresa, milhares se identificaram com a minha situação. Assim, transformamos uma experiência pessoal em uma mobilização nacional.
Agência Brasil: Você tinha conhecimento da PEC que estava parada quando começou sua militância?
Rick Azevedo: Quando fui recebido pelo presidente Lula, ele destacou que essa conquista deveria levar meu nome. No início, eu não entendia muito sobre o processo legislativo, mas nossa luta ganhou força com a mobilização e o apoio da deputada Erika Hilton. Isso demonstrou que essa era uma pauta importante e que a voz dos trabalhadores tem poder.
Agência Brasil: Quais os impactos da nova emenda para os trabalhadores e para a economia?
Rick Azevedo: O impacto mais imediato é devolver a vida ao trabalhador. Um trabalhador descansado é um trabalhador mais produtivo e menos suscetível a doenças. Além disso, isso pode beneficiar a economia, movimentando setores como comércio e turismo. Portanto, essa conquista não é apenas uma melhoria de vida, mas também uma oportunidade para o crescimento econômico sustentável.
Agência Brasil: Como evitar que os empresários burlam a nova legislação?
Rick Azevedo: Precisamos estar vigilantes. Alguns setores podem buscar alternativas para contornar a legislação, e precisamos fortalecer os organismos de fiscalização. A conquista deve ser garantida na prática. O trabalhador não pode ser tratado como um custo, mas como parte fundamental da produção.
Agência Brasil: Que estratégias estão sendo pensadas para evitar retrocessos no novo Congresso?
Rick Azevedo: Uma grande preocupação é que tentativas de retroceder nas conquistas trabalhistas possam surgir. Uma das minhas prioridades será a formação da Bancada CLT, unindo parlamentares comprometidos com os direitos dos trabalhadores. Além disso, continuaremos mobilizando a sociedade, reforçando que essa vitória deve ser defendida coletivamente.



