Cubatão

Apenas 5% das crianças recebem proteção contra a covid devido à desinformação

Desinformação impede vacinação de crianças, com apenas 5% totalmente imunizadas contra a covid-19, resultando em mais de 1 mil internações e 25 mortes em 2026

A pandemia de covid-19 deixou um legado preocupante no Brasil: em 2026, mais de 1.000 crianças e adolescentes foram hospitalizados e 25 perderam a vida em decorrência da doença. Contudo, o país enfrenta uma grave falta de vacinação nessa faixa etária, com apenas 5% das crianças pequenas recebendo as três doses da vacina, conforme dados do Programa Nacional de Imunizações (PNI) do Ministério da Saúde.

Eder Gatti, diretor do PNI, atribui esse alarmante índice à desinformação e ataques à vacinação durante a pandemia, muitos deles promovidos por figuras públicas do governo da época. O Brasil possui estoques suficientes do imunizante e contratos que garantem o fornecimento contínuo, mas a hesitação da população em vacinar seus filhos é evidente.

Desde 2024, a vacina contra a covid-19 é recomendada no calendário básico para crianças aos 6, 7 e 9 meses de idade, com possibilidade de aplicação antes dos 5 anos. Mesmo assim, muitos optam por não vacinar seus filhos devido a informações errôneas.

Como resultado dessa hesitação, o Brasil ainda registra mortes infantis pela covid-19. Este ano, mais de 1.100 crianças abaixo de 14 anos foram hospitalizadas com quadros respiratórios graves, e 15 entre as 25 fatalidades eram menores de 2 anos.

Em entrevista à Agência Brasil, Gatti enfatizou o desafio global que representa a vacinação infantil contra a covid-19, um esforço prejudicado pela desinformação. Ele afirmou: “Tem que pôr na conta de quem de fato deve”. Segundo ele, o governo cumpre sua parte ao adquirir e distribuir as vacinas, mas a resistência da população compromete o sucesso da campanha.

“Qualquer vacina de covid que é perdida hoje é reflexo do discurso antivacina. Essa cifra precisa ser colocada na mesa”, destacou.

O diretor também explicou que a vacina infantil contra a covid-19 requer armazenamento especial, sendo mantida congelada e com validade reduzida a dez semanas após o descongelamento. Caso não seja utilizada dentro desse período, precisa ser descartada.

Segurança e monitoramento da vacina

A vacinação de crianças contra a covid-19 começou em janeiro de 2022, após autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e em meio a debates acirrados. Na época, o Ministério da Saúde chegou a sugerir que a aplicação fosse feita apenas com prescrição médica, enquanto o ex-presidente Jair Bolsonaro questionou a necessidade da vacina para sua filha de 11 anos.

No período crítico da pandemia, entre 2020 e 2022, mais de 23.000 crianças até 11 anos desenvolveram Síndrome Respiratória Aguda Grave devido à covid-19, resultando em 1.067 mortes. Entretanto, estudos da Universidade de São Paulo mostraram que a vacina reduziu em 97% os casos graves nessa faixa etária.

Além disso, a covid-19 pode desencadear a Síndrome Inflamatória Multissistêmica, uma condição grave que afeta diversos órgãos em crianças. De 2020 a 2023, o Brasil registrou 2.115 casos, com 142 óbitos em crianças e adolescentes.

Dados do IBGE de 2023 revelam que 15% das crianças e adolescentes entre 5 e 17 anos não foram vacinados, com quase 40% dos responsáveis alegando medo de reações adversas, 22% considerando a vacina desnecessária e 18% não confiando no imunizante.

Gatti refutou essas preocupações, enfatizando que todas as vacinas passaram por rigorosos testes clínicos e que a vacina contra a covid-19 é a mais estudada de todas, com um grande número de publicações científicas a seu respeito.

O monitoramento contínuo das vacinas no Sistema Único de Saúde permite reavaliações e mudanças de estratégia em caso de qualquer suspeita de reação adversa. Entre as mais de 6 milhões de doses administradas em crianças, não houve registro de óbitos e 92% das reações notificadas foram leves, como febre e dor no local da aplicação.

“Reações adversas graves como miocardite e trombose são muito mais frequentes entre indivíduos contaminados com covid-19 do que entre aqueles vacinados”, ressaltou Gatti.

Com a maioria da população adulta vacinada, o governo federal desde 2024 adotou uma estratégia de enfoque na vacinação infantil e em grupos vulneráveis, que agora devem receber reforços periódicos.

Desafios e avanços do Programa Nacional de Imunização

Eder Gatti discutiu esses desafios durante sua participação na 28ª Jornada Nacional da Sociedade Brasileira de Imunizações, no Rio de Janeiro. Ele destacou que o orçamento do PNI aumentou significativamente, de R$ 5 bilhões para quase R$ 10 bilhões previstos para o próximo ano.

Embora a vacinação contra a covid-19 enfrente obstáculos, outras imunizações do calendário infantil têm mostrado aumento na cobertura. Isso se deve, em parte, à regularização dos estoques e a iniciativas de planejamento que ajudam os municípios a otimizar seus recursos.

Em 2022, várias vacinas tiveram cobertura abaixo de 80%, mas no ano passado, sete imunizantes superaram essa meta. No entanto, duas vacinas ainda necessitam de atenção, mantendo taxas abaixo de 80%, além de outras sete que estão entre 80% e 90%. A segunda dose da tríplice viral, essencial contra o sarampo, é uma delas, em um momento em que surtos têm afetado países das Américas.

“O PNI não só salva vidas, mas também reduz a pressão sobre o sistema de saúde. Deve ser valorizado”, defendeu Gatti.

Recentemente, a implementação da vacina contra o vírus sincicial respiratório para gestantes e o anticorpo monoclonal para recém-nascidos mostrou resultados significativos, com queda superior a 50% nos casos de bronquiolite em bebês menores de seis meses. Além disso, quase 12 milhões de doses da vacina contra a dengue foram administradas desde 2024.

O PNI também iniciou a substituição da vacina VPC10 pela VPC20, que melhora a proteção contra pneumococos. Este ano, o país registrou mais de 1.000 casos de meningite pneumocócica e 320 mortes, e a expectativa é que essa troca ajude a controlar a doença.

“Essas vacinas foram incorporadas seguindo os trâmites necessários e com orçamento garantido. Acreditamos que, à medida que a vacinação avança, veremos um impacto positivo na saúde pública”, concluiu Gatti.

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