Quilombo Ferreira Diniz é tombado e representa resistência na Glória
Quilombo Ferreira Diniz é o primeiro do Rio de Janeiro a ser tombado, destacando sua importância histórica e cultural diante da especulação imobiliária


O Quilombo Urbano Ferreira Diniz, localizado no bairro da Glória, na zona sul do Rio de Janeiro, foi oficialmente tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), tornando-se o primeiro quilombo do estado a receber tal reconhecimento. A área abrange um quintal repleto de árvores como coqueiros, goiabeiras e uma paineira-rosa, e abriga 14 famílias que enfrentam a especulação imobiliária na região.
O tombamento engloba toda a extensão do terreno na Rua Cândido Mendes, incluindo os casarões e os espaços comunitários, reconhecendo sua importância cultural e social. O Iphan também planeja realizar um inventário das manifestações culturais da comunidade como parte das ações de proteção.
Uma das atrações que mais atraem visitantes ao quilombo é a tradicional feijoada preparada por Maria Aparecida Ferreira, a “Tia Cida”. Desde cedo às sextas-feiras, ela cozinha a feijoada que se tornou um ponto gastronômico e um lugar de encontro para os moradores e visitantes. Cida, que começou a vender marmitas, agora vê seu espaço se transformar em um restaurante, servindo não apenas comida, mas também celebrando a cultura quilombola.
O Ferreira Diniz é um dos 13 quilombos urbanos do estado, atraindo tanto cariocas quanto turistas. Para Brenda Pimentel Torres, que reuniu sua família no local, a experiência de estar em um espaço de resistência cultural é opressora e importante. “O apagamento da história dos negros no Brasil é uma realidade, e essa comunidade está se esforçando para resistir e sobreviver a essa realidade”, afirmou.
O Iphan destacou a importância do tombamento como uma forma de enfrentar a gentrificação e proteger a história e a cultura negra na cidade, além de garantir restrições a demolições e intervenções que possam desvalorizar o patrimônio cultural. Patricia Corrêa, superintendente do Iphan no Rio, enfatizou que essa forma de reconhecimento ajuda a enfrentar o apagamento das comunidades negras das áreas centrais da cidade.
O quintal do quilombo, reconhecido como um polo gastronômico e cultural, é o coração da comunidade, onde moradores organizam festas, celebrações religiosas e atividades como rodas de capoeira. O casarão principal, que data do início do século 20, precisa de reforma para assegurar uma melhor qualidade de vida aos moradores.
A expectativa é que o tombamento do Iphan leve a comunidade a obter o reconhecimento da posse coletiva do imóvel pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Ao garantir a posse, a comunidade espera poder acessar programas de reforma e proteção contra desapropriações.
Érida Ferreira, presidenta da Associação da Comunidade do Ferreira Diniz, celebrou o tombamento e destacou sua importância, afirmando que representa não apenas um reconhecimento cultural, mas também uma oportunidade para garantir um futuro mais diversificado. “Dar condições de permanência à comunidade é garantir nosso futuro”, comentou.
Para que a regularização fundiária seja concluída, a comunidade precisará apresentar um estudo técnico elaborado pela Escola de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal Fluminense, que relatará o modo de vida e a história das famílias que vivem ali.
A professora Ana Carmen Amorim, responsável por esse levantamento, destacou que a comunidade tem muito a ensinar sobre o passado e o futuro do Brasil. Ela enfatizou a importância do vínculo comunitário, onde todos se cuidam mutuamente, em contraste com a individualidade dos ambientes urbanos contemporâneos.



