Ex-balconista de farmácia lidera movimento por redução de jornada de trabalho
Movimento liderado por ex-balconista de farmácia impulsiona aprovação da Emenda Constitucional que garante dois dias de descanso semanal para trabalhadores brasileiros


Na última sexta-feira (16), um marco significativo para os direitos trabalhistas no Brasil foi estabelecido com a promulgação da Emenda Constitucional 141/2026, que extingue a escala de trabalho 6×1. A partir de dezembro, todos os trabalhadores terão direito a dois dias de descanso semanal, ao invés de um, como vigente até agora.
A proposta de emenda à Constituição 221/2019, que resultou na nova emenda, foi elaborada pelo deputado federal Reginaldo Lopes (PT-MG) em 11 de dezembro de 2019. Contudo, a tramitação no Congresso ficou estagnada por mais de três anos, avançando apenas em 2023.
Coincidentemente, este também é o ano de criação do Movimento Vida Além do Trabalho (VAT), que surgiu quando um balconista de farmácia decidiu compartilhar sua opressora rotina de trabalho nas redes sociais.
Rick Azevedo, impulsionado pelo descontentamento com a realidade do mercado de trabalho e a legislação atual, começou suas gravações sem saber que uma proposta de sua preocupação já estava em andamento na Câmara dos Deputados.
A proposta original da PEC 221/2019 visava reduzir a carga horária semanal de 44 para 36 horas. A mobilização de Azevedo inspirou a criação da PEC 8/2025, liderada pela deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) e apoiada por mais de 200 parlamentares, sugerindo uma jornada de trabalho de quatro dias por semana.
As iniciativas foram unificadas e adaptadas até culminarem na aprovação e promulgação pelo Congresso Nacional, que agora estabelece dois descansos semanais remunerados e uma jornada semanal máxima de 40 horas.
O destino liga a luta de Azevedo à nova legislação e abre caminho para que ele se torne não apenas um vereador em 2024, mas o segundo deputado federal mais votado do estado em 2026, alcançando 191.371 votos.
A Agência Brasil entrevistou Rick Azevedo, que compartilhou sua trajetória pessoal, a gênese do VAT e as estratégias para assegurar que essa conquista dos trabalhadores prevaleça nos próximos anos. Confira a entrevista:
Agência Brasil: Pode contar sua história pessoal e profissional?
Rick Azevedo: Sou balconista de farmácia, um trabalhador brasileiro. Sou um homem negro, migrante, como muitos que buscam oportunidades e enfrentam desafios diários, mas lutam constantemente. Cresci em Taipas, no Tocantins, e em busca de melhores condições mudei-me para o Rio de Janeiro. Venho de uma realidade que muitos conhecem: acordar cedo, enfrentar transportes lotados e trabalhar arduamente. Sei o que significa trabalhar seis dias e ter apenas um para viver, e é por isso que estou aqui. Não entrei na política para me afastar do trabalhador; entrei para que possamos viver, e não apenas sobreviver.
Agência Brasil: Como surgiu o Movimento Vida Além do Trabalho e sua decisão de expor essa realidade nas redes sociais?
Rick Azevedo: O VAT nasceu da minha indignação com as condições de trabalho. A rotina de trabalhar quase a semana inteira e ter apenas um dia para resolver tudo me fez pensar: “que vida é essa?”. Comecei a gravar vídeos, desabafando sobre essa realidade e, para minha surpresa, muitos se identificaram. O que começou como uma expressão pessoal virou uma mobilização nacional. Mostramos que a internet pode unir os trabalhadores.
Agência Brasil: Você sabia da PEC aprovada quando começou sua militância?
Rick Azevedo: Quando fui recebido por Lula, ele disse que a lei do fim da escala 6×1 deveria levar meu nome. Uma honra imensa para um homem negro e migrante como eu. No início, não sabia o que era uma PEC, mas a luta se intensificou. Apelamos ao povo, organizamos mobilizações e milhões de apoiadores se uniram em prol dessa conquista. Essa luta não é nova; ela tem mais de 200 anos, mas conseguimos renová-la.
Agência Brasil: Como acredita que a mobilização e a PEC 8/2025 ajudaram na aprovação do fim da escala 6×1?
Rick Azevedo: Minha perspectiva é histórica; transformamos um sofrimento individual em uma luta coletiva. O VAT permitiu que milhões de trabalhadores compartilhassem suas histórias. A mobilização, apoiada por diversas entidades, fez com que pautas que pareciam impossíveis ganhassem força. O povo é a verdadeira força da política.
Agência Brasil: Quais são os impactos do fim da escala 6×1 para os trabalhadores e a economia?
Rick Azevedo: O impacto principal é devolver a vida ao trabalhador. Isso significa mais tempo em família, possibilidade de estudo e cuidados com a saúde. Além disso, um trabalhador descansado é mais produtivo e a reorganização das jornadas pode gerar novas contratações e movimentar a economia. Não aceitamos que o desenvolvimento dependa de trabalhadores exauridos e estamos prontos para lutar por isso.
Agência Brasil: Você acredita que o empresariado tentará contornar a nova legislação?
Rick Azevedo: Essa preocupação é válida. Setores empresariais podem tentar burlar conquistas. Precisamos garantir que os direitos estabelecidos sejam respeitados. O fortalecimento da fiscalização e a união dos trabalhadores são essenciais para isso. A luta não é contra os empresários, mas contra a exploração.
Agência Brasil: Há o risco de retrocessos no novo Congresso. Que estratégias estão em pauta para proteger essas conquistas?
Rick Azevedo: Essa é uma preocupação forte. Existem grupos que desejam flexibilizar direitos trabalhistas. Uma das minhas prioridades é formar a Bancada CLT para reunir parlamentares em defesa dos trabalhadores. Mas nossa luta vai além do Congresso. Pretendemos mobilizar a sociedade em torno dessa causa e transformar este momento em um ponto de partida para novas conquistas. Saí da farmácia para o Congresso para lutar por todos os trabalhadores que merecem viver, e não apenas sobreviver.


