

Em meio a um cenário econômico alarmante, o presidente do Chile, José Antonio Kast, enfrenta uma crescente desaprovação popular, apenas sete meses após assumir o cargo. Eleito sob a bandeira da redução do Estado e corte de impostos, Kast agora lida com um aumento no desemprego e a retração do Produto Interno Bruto (PIB), que caiu 0,3% no terceiro trimestre de 2026, após uma queda de 0,2% no segundo trimestre. Este desempenho negativo fez com que o governante lançasse recentemente um programa público de investimentos destinado a reativar a economia chilena.
No trimestre mencionado, as taxas de desemprego subiram 1 ponto percentual em relação ao ano anterior, atingindo 9,6%. Para enfrentar essa crise, seu plano de investimentos prevê a injeção de 1,3 bilhão de pesos chilenos em infraestrutura, criação de empregos e apoio às empresas.
Desde sua posse em março, Kast tem implementado um plano de austeridade, que inclui a redução de 3% nas despesas do governo e cortes de impostos para empresas, uma estratégia comparada à adotada anteriormente por Donald Trump nos Estados Unidos e Javier Milei na Argentina.
Entretanto, a administração Kast decidiu não intervir nos preços dos combustíveis, que têm aumentado devido a conflitos no Oriente Médio. Essa escolha contribui para uma pressão inflacionária sobre a economia chilena. Com essa estratégia, o Fundo Monetário Internacional (FMI) ajustou sua projeção de crescimento do PIB chileno, reduzindo-a de 1,8% para míseros 0,6% para 2026 – a segunda previsão mais baixa da América do Sul, superando apenas a Bolívia, que enfrenta uma recessão estimada em 3%.
Fernando Henrique Lemos Rodrigues, professor de economia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), destaca que a posição de austeridade de Kast tem um impacto severo sobre uma economia que já enfrenta sérias dificuldades, especialmente no setor de cobre, crucial para o Chile.
Mineração em Queda
A produção de cobre no Chile está 8% abaixo do que foi registrado no mesmo período do ano passado, conforme indica um relatório da Câmara Mineira do Chile. O cobre, que representa entre 30% a 40% das exportações chilenas, é vital para a economia do país. Rodrigues explica que os desafios na extração do minério, como o esgotamento de minas e problemas climáticos, têm prejudicado ainda mais a economia.
Corte de Gastos
A agenda de austeridade de Kast, que possui afinidade com o legado da ditadura de Augusto Pinochet, contempla uma redução significativa nos gastos do Estado. Relatórios governamentais indicam uma diminuição de despesas de cerca de 2 trilhões de pesos chilenos, aproximadamente 0,6% do PIB. Um levantamento do jornal chileno The Clinic aponta que esse corte superou US$ 1,4 bilhão, afetando severamente setores como saúde, educação e habitação.
Rodrigues destaca que, ao mesmo tempo em que o governo corta despesas em áreas sociais, impulsiona também a redução de impostos para empresas, resultando em uma significativa perda de receita para o Estado.
Orçamento 2027
Para o orçamento de 2027, a previsão do governo é aumentar as despesas em apenas 1,5% do PIB, crescimento aquém do esperado. Movimentos sociais e organizações têm denunciado a retirada de apoio a programas que atendem a população mais vulnerável. A Fundação Horizonte Cidadão, criada pela ex-presidente Michelle Bachelet, advertiu que os cortes prevêm impactos negativos em 48 programas sociais, totalizando 325 bilhões de pesos chilenos.
“O contraste com a promessa de Kast de cortar gastos sem tocar em benefícios sociais é flagrante”, comenta o Centro de Investigação Jornalística (CIPER) do Chile. A insatisfação popular se reflete nas mobilizações estudantis contra os cortes na educação, que frequentemente resultam em confrontos com a polícia. Neste ambiente turbulento, a desaprovação de Kast já ultrapassa 60% – um sinal alarmante para um governo em busca de estabilidade.



