Um ano após Operação Contenção, investigações sobre mortes permanecem em andamento
Um ano após a Operação Contenção, investigações sobre as mortes de 121 pessoas continuam, sem esclarecimentos sobre as circunstâncias e responsáveis


Na madrugada de 28 de outubro de 2025, mais de 2,5 mil policiais civis e militares lançaram a Operação Contenção nos complexos de favelas do Alemão e da Penha, uma das mais letais da história do Rio de Janeiro. O intenso confronto resultou em 121 mortos, entre eles cinco policiais, levando a uma nova onda de discussões sobre a eficácia e a ética das operações policiais em comunidades carentes.
Após horas de combate, com ônibus incendiados por bandidos e o avanço das forças de segurança pelas ruas estreitas das favelas, o resultado foi alarmante. O levantamento inicial indicava 121 vidas perdidas, um número que aumentaria para 122 em 22 de novembro com a morte de um policial em decorrência dos ferimentos. Imagens de corpos empilhados na Vila Cruzeiro se espalharam globalmente, enquanto a polícia alegava que as mortes de civis foram resultado de troca de tiros. No entanto, moradores e familiares das vítimas relataram episódios de tortura e execuções.
Um ano após os eventos, as investigações sobre as mortes permanecem inconclusivas, apesar dos esforços da Polícia Civil, da Polícia Federal e do Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ).
Operação Contenção
A operação, que a Polícia Civil descreveu como uma “megaoperação”, visava prender líderes do crime organizado atuando em favelas do estado. Segundo o governo, as ações tiveram como objetivo desarticular a facção criminosa Comando Vermelho, combatendo seu poder territorial e financeiro.
Investigação
O promotor Fabio Correa, coordenador do Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública do MPRJ, lidera a investigação sobre as mortes na operação. Ele considera essa ação um evento sem precedentes na segurança pública do estado. Até agora, foram coletados depoimentos de 255 policiais e 61 pessoas detidas, além de 45 entrevistas com parentes de vítimas. O MPRJ acompanha laudos periciais e investiga mais de 4 mil horas de gravações feitas pelas câmeras corporais dos policiais. Contudo, a falta de gravações durante momentos cruciais, devido ao esgotamento das baterias, gera questionamentos sobre a responsabilidade dos agentes durante a operação.
Casos atípicos
Dois casos em particular despertaram atenção dos peritos por suas circunstâncias incomuns: uma morte por disparo a curta distância e outro caso de decapitação, que estão sendo rigorosamente investigados pelo MPRJ.
Excesso de força e desvio de conduta
Embora a operação tenha sido marcada por relatos de execuções extrajudiciais, não se limita a isso. O MPRJ já denunciou 27 policiais por crimes como desvio de fuzis, furtos e constrangimento. De acordo com investigações, 17% das câmeras foram desligadas intencionalmente, dificultando o acompanhamento da conduta policial.
Direitos Humanos
Em um relatório recente, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) destacou irregularidades na operação e na investigação subsequente, incluindo a tática de encurralamento usada pelas forças policiais. As consequências foram devastadoras: além da superlotação do Instituto Médico-Legal (IML), houve informações sobre maus-tratos a detentos e lesões em presos, além de evidências de que alguns corpos apresentavam marcas que sugeriam execuções extrajudiciais.
Um ano após a operação
Pesquisadores e defensores dos direitos humanos apontam que, apesar da quantidade de mortes, não houve mudança significativa no controle territorial do Comando Vermelho nas favelas, que continua a perpetuar a violência na região. O cenário se revelou um ciclo vicioso: operações que prometem segurança e controle resultam em um número alarmante de mortes e trauma contínuo para os moradores.
Um ano após a Operação Contenção, a realidade se mantém imutável para os habitantes das favelas do Alemão e da Penha, que continuam a viver sob a constante sombra do medo e da violência. A crítica é clara: em busca de mudanças, a abordagem se revela ineficaz e gera mais dor.
*Repórter da TV Brasil.


