Cubatão

Evangélicos rejeitam uso político de igrejas, aponta pesquisa sobre religião e voto

Pesquisa indica que a maioria dos evangélicos se opõe à politização das igrejas e à influência de líderes religiosos nas eleições

Durante uma conversa com a Agência Brasil, o pastor Lucas Oliveira, de 30 anos, expressou sua crença de que “o voto deveria ser do cidadão e não da religião”. Essa afirmação reflete as contradições reveladas pela pesquisa nacional “Religião e Vida Pública no Brasil”, realizada pelo Instituto de Estudos da Religião (Iser) em parceria com a Quaest Pesquisa e Consultoria. O levantamento foi divulgado na semana passada e aponta que, apesar da forte presença de evangélicos e católicos nas disputas políticas, a maioria dos fiéis rejeita a intermediação de igrejas na política.

A pesquisa revelou que 83% dos entrevistados são contra a indicação de voto por líderes religiosos, 82% desaprovam a inserção de discussões políticas durante cultos e missas, e 90% manifestam resistência a campanhas eleitorais dentro dos templos. Segundo Lívia Reis, pesquisadora do Iser, a influência da religião na política não ocorre tanto por métodos diretos de votação, mas por meio da formação de valores e identidades. “É mais correto falar em mediação religiosa do voto do que em transferência de votos”, afirmou.

A politização das instituições religiosas, que se intensificou a partir das eleições presidenciais de 2018, gerou divisões internas nas comunidades. Os fiéis perceberam que podem construir suas opiniões políticas sem a influência direta das lideranças. Essa desconexão entre o protagonismo público de certas lideranças e a percepção dos fiéis é evidente, como analisa Reis.

Lucas Oliveira observa o impacto negativo do discurso eleitoral entre os membros de sua comunidade, relatando uma perda significativa de fiéis desde 2018. “Conheço pastores que apoiaram fervorosamente candidaturas, mas que hoje evitam o assunto político em suas igrejas”, destacou. O pastor também enfatizou que a igreja se tornou um espaço de pessoas “machucadas” por divisões políticas.

O pastor Moisés Blanco, da Igreja Batista Peregrina, em Natal, manifestou essa mesma preocupação, participando da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, que busca resistir à politização dos templos. Ele aponta que essa consciência reflete a essência dos protestantes e a tradição de separação entre Igreja e Estado.

A pesquisa Iser/Quaest, com 15 mil entrevistas realizadas em 412 municípios brasileiros, destaca que 29% da população se declara evangélica, sendo a maioria pentecostal (70%). A Assembleia de Deus é a maior denominação, representando 32% dos evangélicos. Já o catolicismo ainda predomina no Brasil, compondo 50% da população, mas apenas 31% se identificam como praticantes.

Embora a pesquisa tenha mostrado uma resistência à politização de espaços religiosos, os valores religiosos continuam a influenciar o comportamento político dos cristãos, especialmente nas redes sociais. Dentre os entrevistados, 66% afirmaram usar o WhatsApp como meio de articulação para comunidades e grupos religiosos. Reis ressalta que a política se insere na religião sem necessariamente passar pelo púlpito, alcançando os fiéis por grupos de WhatsApp e influenciadores.

O levantamento também revelou que a religião não determina automaticamente o voto, mas participa de sua construção através de valores. Por exemplo, a aceitação da diversidade sexual e a defesa de valores cristãos acabam moldando a opinião política dos indivíduos. Dados apontam que 79% dos evangélicos apoiam a educação sexual nas escolas e 90% são contra o homeschooling.

Recentemente, um episódio envolvendo Nossa Senhora Aparecida ilustrou como o debate religioso pode atravessar as fronteiras das igrejas. Grupos evangélicos ligaram-se a essa discussão sobre o título de Padroeira do Brasil, resultando em uma ação judicial por parte do candidato Flávio Bolsonaro, que negou as informações e recebeu apoio emocional da Justiça. Em uma série de decisões, ministros do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal Superior Eleitoral se envolveram, decidindo a respeito da remoção de conteúdos relacionados ao caso nas redes sociais.

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