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Anistia Internacional leva denúncia contra Milei à ONU por agressões a jornalistas

Anistia Internacional denuncia Milei à ONU por hostilidade a jornalistas e incitação à violência em meio a um aumento das agressões à imprensa na Argentina

A Anistia Internacional anunciou que irá denunciar o presidente argentino, Javier Milei, tanto à Organização das Nações Unidas (ONU) quanto à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) devido à sua hostilidade em relação à imprensa.

Na última semana, Milei não hesitou em desferir insultos contra jornalistas que o investigaram, chegando a afirmar que deveriam “queimar na fogueira”. Esses comentários surgiram logo após o arquivamento, na última sexta-feira (23), do caso conhecido como “criptogate”, que suscitou suspeitas sobre irregularidades relacionadas à criação da criptomoeda $Libra, da qual Milei e sua irmã, Karina Milei, eram implicados.

A Anistia Internacional, uma ONG que defende os direitos humanos em mais de 150 países, incluindo o Brasil, considera que as declarações do presidente são um ataque direto à liberdade de expressão.

Gritos de intolerância

Durante seu discurso, Milei atacou especificamente jornalistas como Hugo Alconada Mon, Carlos Pagni, Paulino Rodrígues, Natalia Volosin e Luis Novaresio, chamando-os de “empacotados”, “corruptos” e “mercenários da mentira”.

Em um tom agressivo, declarou: “os que têm que queimar na fogueira são os filhos da p*”.

Em uma postagem publicada na rede social X, Milei alegou ser alvo de uma “tremenda operação política e midiática” destinada a prejudicar seu governo com fins de “conspiração golpista”, e ainda descreveu os jornalistas como “subornados e mercenários da mentira”.

Para a Anistia Internacional, essas declarações não só promovem a hostilidade contra a imprensa como também ameaçam aqueles que buscam informar a sociedade, prejudicando o debate democrático.

“Estamos profundamente preocupados com a escalada de hostilidade contra a imprensa e levaremos esses fatos a instâncias internacionais, em nosso trabalho de monitoramento e denúncia da deterioração da liberdade de expressão na Argentina”, enfatizou a organização.

A ONG classifica a expressão “queimar na fogueira” como uma referência à violência extrema e uma grave escalada de hostilidade por parte de um líder que não deve incitar a violência contra a imprensa.

“Sua retórica não se limita a questionar a cobertura, mas individualiza e estigmatiza jornalistas”, ressaltou.

Mariela Belski, diretora-executiva da Anistia na Argentina, destacou que os ataques de Milei criam um clima de intimidação, que pode culminar em agressões reais.

“O cargo que ocupa exige responsabilidade reforçada. Deveria garantir que a imprensa possa investigar e informar com liberdade e segurança. O assédio por parte do poder deteriora o debate democrático e afeta o direito da sociedade de estar informada”, afirmou.

Números alarmantes

Para sustentar suas alegações, a Anistia Internacional menciona um monitoramento realizado pelo Fórum de Jornalismo Argentino, que registrou 278 casos de ataques a jornalistas em 2025—um aumento de 55% em relação ao ano anterior e o maior número desde 2008.

Desses ataques, Milei foi identificado como o autor de 119, tornando-se assim o principal agressor. O levantamento também documentou 139 discursos estigmatizantes, 20 ações judiciais contra jornalistas e 28 restrições no acesso à informação.

A repetição dessas práticas, segundo a Anistia, poderá gerar um efeito silenciador que vai além das vítimas diretas, desencorajando investigações e favorecendo a autocensura.

“O jornalismo livre é vital para o controle democrático do poder”, alertou a ONG.

Ouvido na CIDH

A Anistia lembrou que, em novembro de 2025, participou, junto a outras organizações de direitos humanos e de imprensa, de uma audiência na CIDH, onde denunciou o crescimento das agressões à liberdade de expressão, as ameaças online e o assédio judicial.

A CIDH, instituição autônoma da Organização dos Estados Americanos (OEA), já manifestou interesse em acompanhar a situação na Argentina.

A jornalista Carla Gaudensi, da Federação Argentina de Trabalhadores de Imprensa, confirmou à Agência Brasil que se unirá à Anistia na proposta de denúncia à CIDH.

A Federação Internacional dos Jornalistas (FIP) também se posicionou contra as declarações de Milei. A presidente da FIP, Zuliana Lainez, afirmou à Agência Brasil que a situação vai além de um simples embate verbal.

“Há um clima de intimidação que põe em risco a integridade dos trabalhadores da imprensa, favorecendo a autocensura e ameaçando o exercício de uma função essencial em qualquer sociedade democrática”, denunciou.

Lainez salientou que os ataques não podem ser vistos de forma isolada, pois fazem parte de um contexto de deterioração das condições para a imprensa na Argentina, que inclui agressões físicas e ações judiciais.

Repúdio generalizado

O Sindicato de Imprensa de Buenos Aires emitiu um nota de repúdio às declarações de Milei, considerando que sua incitação à violência contra jornalistas atravessa um “limite gravíssimo”.

“Essas palavras devem provocar uma reação imediata de todo o espectro político e midiático para conter os ataques contra nossa profissão. Não haverá espaço para lamentos se a violência promovida pelo presidente se converter em atos concretos”, alerta a nota.

Caso do jornalista brasileiro

No último dia 12, o jornalista brasileiro Rogério Tomaz Jr., conhecido por suas críticas ao governo Milei, foi impedido de entrar na Argentina ao desembarcar no aeroporto Aeroparque, em Buenos Aires. As autoridades migratórias cancelaram sua residência permanente e impuseram uma proibição de reingresso por cinco anos.

Com sede em Brasília, Tomaz acompanha a política argentina e produz conteúdos sobre as medidas do governo Milei, incluindo cortes de gastos, privatizações e inflação, além de estar trabalhando em um livro sobre a gestão do presidente argentino.

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