Temporada das Baleias-Jubarte registra queda no número de filhotes na costa brasileira
Queda na natalidade de filhotes de baleias-jubarte é preocupante e pode estar ligada ao aquecimento global afetando sua alimentação na Antártida


A temporada de reprodução das baleias-jubarte, que anualmente migram da Antártida para o arquipélago dos Abrolhos, na Bahia, enfrenta uma crise sem precedentes. Em 2023, menos filhotes estão nascendo nas águas brasileiras, com a taxa de natalidade reduzida para apenas 3,35% da população avistada, bem abaixo da média histórica de 9,98% desde 2014. O aquecimento global é apontado como a principal causa dessa diminuição drástica na fecundidade das jubartes, que normalmente se reproduzem entre junho e novembro.
Segundo o Instituto Baleia Jubarte, durante todo o ano de 2022, a taxa de natalidade foi de 10,7%, e em 2024 chegou a um recorde de 16,69%. O diretor de pesquisas do instituto, Milton Marcondes, explica que o aquecimento global impacta a disponibilidade de krill, principal alimento das jubartes, na Antártida. “Baleias que não se alimentam adequadamente antes da migração podem ter baixa fertilidade ou perder os filhotes durante a gestação”, alerta Marcondes.
Monitoramento cuidadoso
Os dados sobre a natalidade das jubartes são o resultado de monitoramentos diários realizados por pesquisadores do instituto, a bordo de uma embarcação que transporta celulose entre Belmonte, na Bahia, e Barra do Riacho, no Espírito Santo. Marcondes destaca a importância da contagem diária para obter estatísticas confiáveis, explicando que a metodologia consistente permite comparações precisas year após year.
Neste ano, a contagem de 431 baleias avistadas, incluindo apenas 42 filhotes, revela uma proporção alarmantemente baixa. Além disso, a partir de sobrevoos, a estimativa da população total de jubartes no Brasil está em andamento. O último levantamento, realizado em 2022, apontou um número recorde de 34,5 mil baleias, mas as expectativas para este ano não são animadoras, segundo o Instituto Baleia Jubarte.
Marcondes também observa que as flutuações na população são normais, mas entendê-las é crucial, visto que problemas de reprodução não se limitam ao Brasil; a situação das jubartes também é preocupante em outras regiões, como no Pacífico e na Austrália.
Impactos alarmantes
A baixa taxa de natalidade está impactando diretamente a duração da temporada de reprodução. Com menos filhotes, as jubartes começam a abandonar as águas brasileiras mais cedo, resultando em uma temporada mais curta. Tradicionalmente, a flutuação populacional é influenciada pela presença dos filhotes, que precisam passar um tempo significativo com suas mães para desenvolver a musculatura e a gordura necessárias para a migração de volta à Antártida, onde as temperaturas são drasticamente mais frias.
Os encalhes de jubartes também revelam preocupações. A maioria dos casos refere-se a filhotes, que são particularmente vulneráveis nesse estágio da vida, dependendo da mãe para sobreviver. Marcondes observa que, com menos filhotes, a incidência de encalhes de jovens tem aumentado, o que é preocupante, dado que os adultos possuem mais habilidades para encontrar alimento e acumular reservas de gordura. Por outro lado, os juvenis, que não estão ainda prontos para a reprodução, costumam permanecer nos estados mais ao sul durante a migração, resultando em um aumento de casos de encalhes em Santa Catarina e São Paulo, áreas onde esse fenômeno não costuma ser tão frequente.
Embora o número de encalhes tenha diminuído em relação ao ano passado, com 59 casos registrados até o momento, ainda há outras ameaças. Em anos com baixos níveis de krill, como em 2010, 2017 e 2018, picos de encalhe foram observados. O recorde de 230 animais mortos na costa brasileira foi registrado em 2021, coincidentemente, um ano marcado pela baixa natalidade.
Marcondes alerta: “Este ano não registramos um pico de encalhe, mas a preocupação persiste, especialmente com os juvenis no Sul. Se a disponibilidade de krill continuar afetada, podemos enfrentar uma mortalidade atípica no próximo ano, já que o problema tende a ser cumulativo”.



