Mostra destaca conexão entre abolicionismo feminino e a luta antirracista hoje

Exposição no Museu Nacional de Belas Artes une arte contemporânea e a história das mulheres abolicionistas, ressaltando sua influência na luta antirracista atual

No Museu Nacional de Belas Artes, no coração do Rio de Janeiro, uma obra de Mônica Ventura destaca-se na exposição Abolicionistas Brasileiras, que vai até 19 de dezembro. Trata-se de uma escultura que coloca um balaio — símbolo de resistência e geração de renda para mulheres negras desde a época da escravidão — no topo de um sólido pilar de tijolos de barro, ilustrando a força e o papel fundamental dessas mulheres na formação da sociedade brasileira.

Este cesto, utilizado há séculos para armazenar alimentos e oferecer produtos, também representa a emancipação econômica, refletindo o cotidiano de muitas mulheres que, ao longo da história, venderam alimentos nos centros urbanos como meio de subsistência.

 


Rio de Janeiro (RJ), 05/11/2027 - Balaio em cima de uma pilha de tijolos em obra da artista Mônica Ventura na mostra Abolicionistas Brasileiras, com curadoria de Ana Carla Soler e co-curadoria de Francela Carrera e Carolina Rodrigues, na Sala Bernardelli do Museu Nacional de Belas Artes, centro da capital. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
Rio de Janeiro (RJ), 05/11/2027 - Balaio em cima de uma pilha de tijolos em obra da artista Mônica Ventura na mostra Abolicionistas Brasileiras, com curadoria de Ana Carla Soler e co-curadoria de Francela Carrera e Carolina Rodrigues, na Sala Bernardelli do Museu Nacional de Belas Artes, centro da capital. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Balaio em cima de uma pilha de tijolos em obra da artista Mônica Ventura na mostra Abolicionistas Brasileiras. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

A exposição reúne obras contemporâneas e peças do acervo do museu, oferecendo uma nova perspectiva sobre a trajetória de oito importantes mulheres abolicionistas:

  • Anastácia,
  • Aqualtune,
  • Luiza Mahin,
  • Maria Felipa,
  • Maria Firmina dos Reis,
  • Adelina,
  • Esperança Garcia,
  • Maria Tomásia.

As obras artísticas não apenas resgatam essas personagens históricas, mas também debatem a contínua presença do racismo, especialmente contra as mulheres negras.

Resistência à escravidão

A artista Thaís Iroko, conhecida por suas obras que valorizam a memória ancestral, buscou uma conexão sensorial com Anastácia, uma das mulheres retratadas na exposição. Sua ilustração, que representa Anastácia cega, explora o silenciamento imposto a essa figura histórica. Em representações mais tradicionais, Anastácia aparece com a boca coberta por uma máscara de flandres, um instrumento de tortura que silenciava suas vozes de resistência.

A curadora Ana Carla Soler explica que, no livro Memórias da Plantação, a escritora Grada Kilomba sugere que o uso da máscara pode ter sido motivado por Anastácia incitar a mobilização e a resistência entre os escravizados.

 


Rio de Janeiro (RJ), 05/11/2027 - Anastácia a Aqualtune retratadas por Thaís Iroko e Guilhermina Augusti na mostra Abolicionistas Brasileiras, com curadoria de Ana Carla Soler e co-curadoria de Francela Carrera e Carolina Rodrigues, na Sala Bernardelli do Museu Nacional de Belas Artes, centro da capital. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
Rio de Janeiro (RJ), 05/11/2027 - Anastácia a Aqualtune retratadas por Thaís Iroko e Guilhermina Augusti na mostra Abolicionistas Brasileiras, com curadoria de Ana Carla Soler e co-curadoria de Francela Carrera e Carolina Rodrigues, na Sala Bernardelli do Museu Nacional de Belas Artes, centro da capital. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Anastácia e Aqualtune retratadas por Thaís Iroko e Guilhermina Augusti na mostra Abolicionistas Brasileiras. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Sua companheira Aqualtune é retratada por Guilhermina Augusti em momentos distintos de sua vida, como princesa do Congo e, posteriormente, como cativa. O simbolismo da força está presente nas imagens com a utilização de adinkras e búzios. Aqualtune também desempenhou um papel decisivo no Quilombo dos Palmares, onde nasceu seu neto, Zumbi, cuja data de morte, 20 de novembro, foi escolhida para o Dia da Consciência Negra.

A exposição recorda ainda Luiza Mahin, mãe de Luiz Gama; Maria Felipa, a pescadora que lutou pela independência; Maria Firmina dos Reis, considerada a primeira escritora abolicionista do Brasil; além de Adelina, que foi uma informante do movimento abolicionista no Maranhão, e Esperança Garcia, reconhecida como a primeira advogada do país, que denunciou maus-tratos em uma carta às autoridades em 1770. Por fim, é possível encontrar na lista a única mulher branca, Maria Tomásia, fundadora de uma sociedade contra a escravidão.

 


Rio de Janeiro (RJ), 05/11/2027 - Mostra Abolicionistas Brasileiras, com curadoria de Ana Carla Soler e co-curadoria de Francela Carrera e Carolina Rodrigues, na Sala Bernardelli do Museu Nacional de Belas Artes, centro da capital. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
Rio de Janeiro (RJ), 05/11/2027 - Mostra Abolicionistas Brasileiras, com curadoria de Ana Carla Soler e co-curadoria de Francela Carrera e Carolina Rodrigues, na Sala Bernardelli do Museu Nacional de Belas Artes, centro da capital. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Mostra Abolicionistas Brasileiras, com curadoria de Ana Carla Soler e co-curadoria de Francela Carrera e Carolina Rodrigues, na Sala Bernardelli do Museu Nacional de Belas Artes, centro da capital. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Persistência do racismo

Uma gigantesca obra de crochê, representando um seio, apende do teto da sala de exibição em alusão às mulheres escravizadas que atuaram como amas de leite. Com o título Tetas que deram de mamar ao mundo, a artista Lidia Lisboa leva à reflexão sobre as condições de trabalho ainda enfrentadas por muitas mulheres negras, que, até recentemente, não tinham seus direitos trabalhistas equiparados aos de outros trabalhadores.

 


Rio de Janeiro (RJ), 05/11/2027 - Obra suspensa Tetas que deram de mamar ao mundo, da artista Lidia Lisboa, na mostra Abolicionistas Brasileiras, com curadoria de Ana Carla Soler e co-curadoria de Francela Carrera e Carolina Rodrigues, na Sala Bernardelli do Museu Nacional de Belas Artes, centro da capital. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
Rio de Janeiro (RJ), 05/11/2027 - Obra suspensa Tetas que deram de mamar ao mundo, da artista Lidia Lisboa, na mostra Abolicionistas Brasileiras, com curadoria de Ana Carla Soler e co-curadoria de Francela Carrera e Carolina Rodrigues, na Sala Bernardelli do Museu Nacional de Belas Artes, centro da capital. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Obra suspensa Tetas que deram de mamar ao mundo, da artista Lidia Lisboa, na mostra Abolicionistas Brasileiras Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

A curadora Ana Carla Soler destaca que a proposta da exposição é fomentar um diálogo essencial sobre o legado da escravidão e desafiar a crença de que a libertação se deu apenas com a assinatura da Lei Áurea, em 1888.

“As artistas aqui presentes propõem uma conversa sobre a persistência do racismo no Brasil e nos convidam a refletir sobre a reconstrução de uma sociedade mais justa e igualitária, onde pessoas não negras também possam participar”, aponta Soler.

As obras dedicadas às abolicionistas foram encomendadas pelo Instituto Artistas Latinas, como parte de um esforço para ampliar a representação de artistas negras em coleções de arte. Durante o processo criativo, o instituto percebeu que o material gerado poderia ser exibido em formato de exposição, resultando em colaborações com diversas instituições culturais.

A mostra já teve passagens por locais como o Museu de Arte do Rio, o Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães, em Recife, a Casa de Cultura da América Latina, em Brasília, e o Centro Cultural São Paulo.

“Essa exposição é dinâmica. A cada local, ela chega com o objetivo de ampliar e enriquecer as narrativas sobre a abolição e desafiar as instituições culturais”, afirma a curadora.

Com essa abordagem, a curadoria incentiva as instituições a refletirem sobre a presença ou ausência de obras de artistas negras em suas coleções e sobre os temas abordados na exposição.

 


Rio de Janeiro (RJ), 05/11/2027 - Mostra Abolicionistas Brasileiras, com curadoria de Ana Carla Soler e co-curadoria de Francela Carrera e Carolina Rodrigues, na Sala Bernardelli do Museu Nacional de Belas Artes, centro da capital. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
Rio de Janeiro (RJ), 05/11/2027 - Mostra Abolicionistas Brasileiras, com curadoria de Ana Carla Soler e co-curadoria de Francela Carrera e Carolina Rodrigues, na Sala Bernardelli do Museu Nacional de Belas Artes, centro da capital. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Mostra Abolicionistas Brasileiras, com curadoria de Ana Carla Soler e co-curadoria de Francela Carrera e Carolina Rodrigues, na Sala Bernardelli do Museu Nacional de Belas Artes. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

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