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Instalação O Barco no Sesc Pompeia ressalta legado do tráfico de escravizados

Instalação O Barco de Grada Kilomba no Sesc Pompeia questiona a glorificação da história do tráfico de escravizados e suas consequências atuais

A obra O Barco, da artista portuguesa Grada Kilomba, é agora exposta no Sesc Pompeia, em São Paulo, com a proposta de denunciar as marcas deixadas pelo tráfico transatlântico de africanos escravizados. Este ciclo de violência, considerado pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas como um dos crimes mais graves contra a humanidade, resultou na promoção de mais de 4,8 milhões de pessoas ao Brasil, onde foram submetidas ao trabalho forçado.

A artista provoca o público a refletir sobre o que o fundo do oceano nos revelaria caso fosse esvaziado de água. “Se esvaziássemos a água, o oceano e a terra em si iriam revelar uma série de trilhões de passagens de corpos humanos, não só no passado, mas no presente, em uma repetição da violência cíclica”, afirmou Kilomba em entrevista à Agência Brasil.

A instalação é composta por 134 blocos de madeira queimada dispostos em uma área de 220 metros quadrados, formando a silhueta do fundo de um navio negreiro. Kilomba explora a arquitetura utilizada para acomodar os escravizados em porões, destacando a desumanização do processo. “Esta obra vem mostrar aquilo que estava no fundo de muitos barcos que glorificam uma história romântica, mas oculta a barbárie do que realmente ocorreu”, disse a artista.

Além de sua dimensão monumental, O Barco possui 18 blocos com poemas escritos em diversas línguas, incluindo iorubá e árabe, que refletem sobre a memória e o esquecimento. Um dos versos destaca: “Uma alma, uma memória. Uma memória, um esquecimento. Um esquecimento, uma ferida.”

A artista também relaciona sua obra à tragédia de Antígona, questionando as vozes que são lembradas e quais permanecem no esquecimento. Kilomba ressalta que o oceano é um espaço de sepultamento que abriga não apenas as perdas da escravização, mas também as vítimas de guerras e mudanças climáticas. “Múltiplos barcos atualmente continuam a atravessar as águas globais em busca de refúgio”, acrescenta.

Após passar por Lisboa e Londres, esta é a primeira exibição de O Barco no Brasil, após uma temporada de 28 meses no Instituto Inhotim, em Minas Gerais. A instalação está em cartaz até o dia 25 de outubro e é gratuita, acompanhada de outras obras de Kilomba, como a videoinstalação Opera to a Black Venus.

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