

A Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, um dos maiores eventos cinematográficos da América Latina, celebra este ano seu 50º aniversário. Desde sua primeira edição em 1977, a mostra se transformou em um ponto de encontro inigualável para amantes da sétima arte, exibindo um total impressionante de 11.692 filmes de 8.474 cineastas ao longo dessas cinco décadas.
Em 1992, o jornalista Ubiratan Brasil, conhecido como Bira, teve uma experiência marcante em uma das mostras. Ao assistir um filme no Museu de Arte de São Paulo (Masp), notou que apenas 16 pessoas estavam presentes, entre elas o diretor, um jovem Quentin Tarantino, que ali exibia Cães de Aluguel. “Ele estava lá, agradecendo ao público pela presença em um sábado ensolarado. Ninguém tinha ouvido falar dele”, relembra Bira, que presenciou o início da trajetória de um dos cineastas mais influentes do cinema contemporâneo.
Ponto de Virada para o Cinema no Brasil
Com o passar dos anos, a Mostra de Cinema se consolidou como uma vitrine essencial para produções internacionais, desafiando a predominância de blockbusters americanos. “Era um portal que trazia obras de países que nunca eram exibidas aqui, como filmes chineses ou cubanos. A cada sessão, era uma aventura e uma oportunidade de descobrir novas narrativas”, destaca Bira.
Para Vanda Sanae Hamanaka Serizawa, que frequenta o evento desde sua primeira edição, a mostra representou uma janela para o mundo em um período de restrições e censura. “Leon Cakoff, o idealizador, conseguiu contornar a situação da ditadura e sempre aprimorou a mostra a cada ano. Ela virou uma usina de ideias, formando novos críticos e diretores de cinema”, afirma Vanda, que chegou a assistir até sete filmes em um único dia do festival.
História e Evolução
A Mostra Internacional de Cinema surgiu em um contexto desafiador, com apenas 23 filmes de 17 países na sua primeira edição, mas rapidamente se tornou um fenômeno cultural. O evento, que tomou forma nas dependências do Masp, atraiu mais de 15 mil espectadores em sua estreia, um número expressivo considerando as circunstâncias.
“Comecei a tirar férias todos os anos para aproveitar a mostra. Isso virou parte da minha rotina”, comenta Bira, refletindo sobre a importância do evento em sua vida cultural.
Vanda também ressaltou a importância da mostra na criação de públicos novos, tanto através de sessões acessíveis em áreas periféricas quanto pela atmosfera colaborativa que cria entre os cinéfilos. “Virou uma confraria de afetos”, conta ela, sobre a tradição de compartilhar experiências cinematográficas com amigos ao longo do festival.
Uma Mostra Permanente
Notavelmente, a Mostra nunca deixou de ser realizada, nem mesmo durante a pandemia. A adaptação para o formato online e os cinemas drive-in foram algumas das inovações que garantiram sua continuidade. “Acho que o segredo é que a mostra é elástica. Ela pode ser gigantesca ou menor, mas sempre existe”, explica Renata de Almeida, atual diretora do evento.
Neste ano, em um jubileu memorável, a mostra apresentará 380 filmes de 93 países, junto com exposições, shows, debates e o lançamento de novos livros, incluindo o de Renata sobre a história e suas vivências dentro da Mostra. “É um livro de encontros, uma reflexão sobre tudo o que vivi até aqui”, compartilha.
Com 37 anos de envolvimento, Renata reconhece que sua trajetória se entrelaçou com a do festival de forma indissociável. “Tornar-se parte desse evento é algo que transcende trabalho, é uma paixão que se transforma em vida”, conclui.



