

Os eleitores nos Estados Unidos se manifestaram contra a instalação de data centers em suas comunidades, sinalizando descontentamento com o aumento do custo de vida associado a essas grandes estruturas. Durante as eleições de meio de mandato na terça-feira (3), 40 dos 41 plebiscitos locais realizados em dez estados resultaram em rejeição aos projetos das grandes empresas de tecnologia, as chamadas big techs.
A derrota do partido do ex-presidente Donald Trump, que perdeu as maiorias na Câmara dos Deputados e no Senado, reflete também o temor da população em relação ao avanço da inteligência artificial (IA). Uma pesquisa da NBC News revelou que 57% dos eleitores acreditam que a IA trará mais malefícios do que benefícios à sociedade e 76% são contra a construção de data centers em suas comunidades.
Reagindo a esse cenário político, as bolsas de valores em todo o mundo estão experimentando quedas, com destaque para o índice Nasdaq Composite, que viu suas ações recuarem 5,5% nesta sexta-feira (6). O diretor-executivo do Fundo Monetário Internacional (FMI), André Roncaglia, destacou que os resultados eleitorais minaram a coalizão política que sustentava Trump, que tem apoio significativo das big techs.
“Nos EUA, estados com menores regulamentações para data centers atraíam muitos investimentos, mas isso causou diversos impactos ambientais e aumentou os custos de energia e água, gerando uma reação popular significativa”, afirmou Roncaglia, economista e professor da Universidade de Brasília (UnB).
Impactos do Custo de Vida
Os data centers, fundamentais para o processamento de dados das IAs, são criticados por seu alto consumo de energia e água, o que tem contribuído para a elevação dos preços desses insumos nas localidades onde são instalados.
Candidatos do partido democrata advogaram por uma maior regulamentação do setor, em contraste com a postura de Trump, que se opõe a qualquer regulação que possa limitar investimentos no setor. Roncaglia acrescentou que a nova maioria dos democratas na Câmara e no Senado poderá alterar o ambiente até então desregulado para os data centers.
“Mudanças no cenário político geralmente levam o mercado financeiro a ajustar suas expectativas. Esta nova regulação deveria oferecer uma base para um desenvolvimento mais sustentável desse setor”, completou.
Plebiscitos e Desejo de Controle
A grande maioria dos plebiscitos que abordaram a instalação de data centers originou-se de iniciativas populares, com petições solicitando votações. Em 2026, estavam programadas 50 votações sobre o tema, sendo que 41 ocorreram na última terça-feira e outras três estão agendadas para dezembro.
Entre os 47 plebiscitos já realizados, apenas um registrou um resultado favorável ao desenvolvimento de data centers. A maioria das votações buscou restringir ou proibir a instalação de centros com demanda igual ou superior a 25 megawatts, o que caracteriza grandes estruturas.
A ONG Ballotpedia aponta que as taxas de rejeição superam 60%, com um dos plebiscitos em Ottawa, Kansas, que rejeitou a construção de centros demandando mais de 25 megawatts, alcançando 72% dos votos negativos.
Paulo Abraão, diretor-executivo da Brazil Office Alliance, ressaltou que 56% dos eleitores consideraram a IA e os data centers fatores decisivos ou influentes em seu voto. “Esse fenômeno é politicamente relevante, pois ultrapassa as divisões partidárias tradicionais. Não é apenas uma rejeição à tecnologia, mas uma demanda por controle democrático sobre sua expansão”, afirmou.
“A inteligência artificial já faz parte da discussão eleitoral nos EUA e promete ser um tema central nas eleições presidenciais de 2028, especialmente após a erosionada imagem da aliança entre Trump e Musk”, concluiu.
Expectativas de Regulação
Com o novo cenário político, há expectativas de que os democratas apresentem projetos de lei para regulamentar a IA, focando na proteção dos consumidores e na imposição de restrições ao seu desenvolvimento.
A deputada eleita pelo Arizona, Yassmin Ansari, declarou que o primeiro foco dos democratas deve ser uma pausa no desenvolvimento de IA avançada e a regulamentação desse setor em rápida expansão.
Em setembro, Trump já havia proposto uma agenda de “autorregulação” para que as \big techs\ definissem seus próprios mecanismos de controle e segurança, numa tentativa de lidar com as preocupações públicas.



