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Projeto “O Projeto” denuncia colonialismo e exige responsabilidade da Europa

Longa-metragem de Sabrina Fidalgo abordará as consequências do colonialismo europeu e seu impacto nas sociedades contemporâneas durante o Mês da Consciência Negra

“A sociedade ocidental vive um estado de absoluta ignorância, de não saber, de não ter que saber e não dever saber”, reflete a intelectual portuguesa Grada Kilomba no documentário O Projeto.

Com estreia marcada para 19 de novembro, no Mês da Consciência Negra, O Projeto é o primeiro longa-metragem da cineasta brasileira Sabrina Fidalgo, co-dirigido pelo fotógrafo suíço Yvan Rodic. O filme aborda séculos de colonialismo europeu, convidando à reflexão sobre as marcas persistentes da dominação colonial na atualidade, como o racismo e a supremacia branca.

Selecionado para o 54º Festival de Cinema de Gramado e exibido na abertura do Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul, o filme reflete inquietações íntimas dos realizadores sobre a urgência de confrontar esses temas. “Decidimos que seria mais potente contar essa história através de nossas experiências, nos aproximando do público”, disse Sabrina. “Caso contrário, correríamos o risco de nos perder em um documentário histórico, que não é nosso objetivo”.

Senso de Urgência

A produção do filme foi impulsionada pela indignação frente ao assassinato de George Floyd, em 2020, que desencadeou protestos globais contra a violência policial racista. “Havia um senso de urgência”, declarou Yvan, enfatizando a necessidade de ação diante da situação. Inicialmente, o filme era pensado para ser uma perspectiva mais centrada nele, mas a compreensão da importância de incluir as vivências de Sabrina transformou essa abordagem.

A cena impactante de Sabrina usando um pregador de roupas para afinar o nariz ilustra seu próprio relato de discriminação enfrentado ao longo da vida, mesmo vindo de um contexto de classe média. Yvan, por sua vez, acrescenta sua visão como um homem branco oriundo da Suíça, onde a discussão sobre o colonialismo ainda era considerada periférica até pouco tempo.

“Problema Inventado pelos Brancos”

O documentário não apenas examina os benefícios financeiros dos países europeus resultantes do colonialismo, mas também questiona seu papel na continuidade da colonialidade, definindo-a como formas variadas de dominação além da mera ocupação territorial. A vice-presidenta da Associação de Profissionais do Audiovisual Negro (Apan), Janaína Refem, pontua que o filme abre um canal de diálogo essencial com a população branca. “O racismo é um problema inventado pelos brancos, e o filme de Sabrina encapsula isso”, defende.

O cineasta e pesquisador Joel Zito Araújo celebra esta estreia, reconhecendo Sabrina como uma cineasta original, cuja visão promete impactar o cenário audiovisual.

Pesquisa e Entrevistas

Realizado ao longo de seis anos e visitando sete países, O Projeto foi concebido durante a pandemia, mesclando pesquisa histórica e depoimentos de figuras como a filósofa Djamila Ribeiro e o arquiteto Joice Berth. O filme, que já participou da 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, será exibido no 36º Cine Ceará nas próximas semanas, expandindo sua relevância.

Diálogo e Reflexões

A adaptação da narrativa ensaística se deu pela busca de conexão com o público. “A ideia era mostrar nossa visão em relação aos acontecimentos históricos e a forma como esses se entrelaçam com nossas vivências”, explicou Sabrina. O intercâmbio cultural reflete não apenas a experiência de um povo, mas também a inter-relação entre Brasil e Europa na discussão de questões decoloniais.

O filme inclui referências a diretoras como Agnès Varda e documentários impactantes que influenciaram a abordagem dos realizadores. A presença de Yvan no projeto é vista como crucial para abrir um diálogo com a audiência do Norte Global, reconhecendo que a compreensão do racismo e da colonialidade ainda demanda avanços significativos, especialmente na Europa.

“O racismo e a colonialidade são questões que temos que discutir. E, a partir do filme, nosso desejo é atingir as pessoas brancas, que muitas vezes já se sentiram desconfortáveis em abordar esses temas”, conclui Yvan.

Com estreia iminente, O Projeto busca não apenas comunicar uma mensagem, mas também provocar reflexões sobre as estruturas sociais que moldam nossas interações e conscienciar o público sobre temas urgentes e contemporâneos.

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