Eliana Alves Cruz critica falta de representatividade de autoras negras no Prêmio Jabuti
Eliana Alves Cruz destaca a urgência de maior visibilidade para autoras negras no Prêmio Jabuti, questionando a demora no reconhecimento histórico dessas escritoras


A escritora e jornalista Eliana Alves Cruz, que sonhou em ser escritora desde a infância, finalmente transformou sua paixão em profissão após uma jornada de autodescoberta e superação. O catalisador de sua transição para a literatura foi uma série de doenças relacionadas ao estresse em 2009 e 2010, que a levaram a reavaliar sua vida e carreira.
Natural de uma família onde a oralidade e a literatura se entrelaçavam, com pai e avós que amavam contar histórias, Eliana encontrou no jornalismo uma forma de exercer sua vocação e garantir sustento. Sua trajetória literária começou com Água de Barrela, um livro que mergulha na saga de sua própria família, descendente de africanos escravizados, e que lhe rendeu, em 2015, o Prêmio Literário Oliveira Silveira, promovido pela Fundação Cultural Palmares.
Desde então, a escritora não parou. Em 2022, seu primeiro Jabuti na categoria Contos foi conquistado com A vestida, e em 2026, ela levará novamente o prêmio por Meridiana, que aborda a vida de uma família negra em busca de ascensão em uma favela. O reconhecimento, segundo Eliana, deveria ser visto com estranheza, não pela sua condição como vencedora, mas pela tardia inclusão das vozes de escritoras negras na premiação, fato que evidencia a desigualdade de oportunidades no cenário literário brasileiro.
Eliana também foi agraciada com o Prêmio Guimarães Rosa, da Academia Brasileira de Letras, em 2025. Com um enfoque marcante em temas como racismo e escravidão, sua obra busca registrar e investigar a vida negra no Brasil. Obras como O crime do Cais do Valongo surgiram nesta abordagem, dividindo sua experiência como jornalista com a narrativa literária.
Trechos da entrevista de Eliana Alves Cruz à Agência Brasil:
Agência Brasil – Como nasceu sua vontade de escrever?
Eliana Alves Cruz – Desde pequena, sonhei com a escrita. Com 11 anos, já havia anotado em meu diário que queria ser escritora. Contudo, entrei num redemoinho de exigências da vida, fazendo Comunicação e Jornalismo por acreditar que “ninguém vive de escrita”. Trabalhei intensamente, sem tempo para minhas aspirações. Foi apenas após adoecer que me permiti seguir o que sempre desejei.
Agência Brasil – Como foi a pesquisa para Água de Barrela?
Eliana Alves Cruz – A pesquisa foi um processo de autoterapia. Colecionei histórias orais da minha família, com a ajuda de uma madrinha acumuladora que guardou documentos e fotos valiosas. Em uma conversa com minha tia-avó, que possui 105 anos, descobri inúmeras lembranças fundamentais que enriqueceram meu trabalho.
Agência Brasil – E a relação com a literatura e o jornalismo?
Eliana Alves Cruz – Minha formação como jornalista aguçou meu olhar crítico e investigativo, permitindo que eu questionasse o que não estava visível na história. A oralidade defendida nas narrativas também se tornou um pilar essencial na construção de meus trabalhos literários.
Agência Brasil – Meridiana ganhou destaque e premiado. O que isso significa?
Eliana Alves Cruz – Esse reconhecimento não apenas valida meu trabalho, mas também ilumina questões sociais mais profundas. O fato de eu ser a primeira mulher negra a ganhar um Jabuti na categoria Romance é alarmante e representa um chamado à reflexão sobre a diversidade na literatura brasileira.
Agência Brasil – E quanto à sua experiência no programa Trilha de Letras?
Eliana Alves Cruz – Apresentei a quarta temporada do programa e espero que ele retorne. É um espaço vital dedicado à literatura na TV aberta, e seu retorno é aguardado tanto por mim quanto pelo público.
Agência Brasil – Que mensagem você tem para jovens escritores?
Eliana Alves Cruz – Perseverem. A escrita exige tempo, e entendo as dificuldades enfrentadas, mas não desistam. A crítica é uma ferramenta valiosa. Investiguem suas próprias histórias e busquem sua própria voz. Todo escritor enfrenta desafios; o importante é persistir.
A trajetória de Eliana Alves Cruz não é apenas uma história de sucesso, mas também um reflexo das lutas enfrentadas por uma parcela da sociedade que ainda busca espaço e reconhecimento. O caminho que ela trilha permanece repleto de desafios, mas sua determinação continua a inspirar novas gerações de escritores.



