
Kaio, um homem de 42 anos do Distrito Federal, enfrenta uma dura realidade após se tornar dependente de jogos de aposta. Ele perdeu, em questão de minutos, cerca de R$ 5 mil, quantia que havia recebido de um amigo para pagar dívidas com agiotas, fruto de apostas anteriores. Na madrugada que mudou sua vida, ele percebeu que o dinheiro sumia enquanto a família dormia, alertando sobre a falta de controle que a ludopatia pode provocar.
A dependência de jogos, que começou após a morte de seu pai, levou Kaio a vender bens, incluindo o carro e até a casa da família, resultando no fim de seu casamento. Ele hoje vive em condições precárias, dormindo em um dormitório alugado e lamentando a perda de sua dignidade e a separação dos filhos.
Com mais de R$ 200 mil em dívidas acumuladas, Kaio se viu obrigado a pedir demissão de seu trabalho e utilizar a rescisão para quitar novas pendências. Reconhecendo a profundidade do seu problema, ele começou a frequentar um centro de apoio psicossocial no Distrito Federal, onde compartilha suas experiências e busca ajuda. Atualmente, toma três medicamentos diários e acredita que o suporte dos grupos de terapia é fundamental para sua recuperação.
A psiquiatra Kátia Branco, do Hospital das Clínicas de São Paulo, destaca que a ludopatia é uma doença que afeta principalmente pessoas em situação de vulnerabilidade, que, em busca de melhoria financeira, acabam sendo seduzidas por propagandas enganosas sobre apostas. Esse fenômeno tornou-se perigoso, especialmente em comunidades onde os moradores, deslumbados com a ideia de ganhos rápidos, podem comprometer a subsistência familiar.
Especialistas alertam que o endividamento em decorrência do jogo pode agravar outros problemas de saúde mental, como depressão e ansiedade. A crescente presença de transmissões esportivas que tratam apostas de forma trivial contribui para a normalização dessa prática. O tratamento da ludopatia é complexo e exige uma abordagem multidisciplinar, ressaltando a importância do acompanhamento familiar.
João, outro paciente em tratamento, sofre com a dependência de jogos online, uma situação que também gera tensões familiares. Sua mãe acompanha seu tratamento no Caps, preocupado com o uso de recursos limitados em apostas. Ricardo, um pedreiro de 26 anos da favela do Sol Nascente, relata que, embora tenha perdido mais de R$ 100 mil em apostas, ainda resiste a procurar ajuda profissional, preferindo minimizar seu problema.
O Instituto Brasileiro de Jogo Responsável reconhece a importância de discutir a prevenção do jogo problemático, ressaltando que as apostas devem ser encaradas como entretenimento, não como uma fonte de renda. A entidade defende uma atuação conjunta entre poder público e sociedade para enfrentar os desafios trazidos pelo vício em apostas.
Diante de um cenário que impacta a vida de muitos brasileiros, o tratamento e a conscientização sobre os riscos das apostas se tornam essenciais, buscando oferecer alternativas e suporte àqueles que enfrentam a ludopatia.



