Devastação da Amazônia ameaça maior máquina de chuva do planeta
Devastação da Amazônia compromete o ciclo de chuvas e ameaça o abastecimento hídrico de milhões de pessoas na América do Sul

A Amazônia, considerada a maior “máquina de chuva” do mundo, é vital para a manutenção dos ciclos de água, nutrientes e carbono na América do Sul. A pesquisa da cientista Julia Valentim Tavares destaca que a floresta gera um impacto significativo na distribuição de água, ao liberar entre 200 a 300 litros de água na forma de vapor por árvore diariamente. A umidade do mar provoca chuvas na região, que são dispersas pelo continente por meio de correntes de ar, beneficiando milhões de pessoas.
Durante o TEDxAmazônia, realizado no final de agosto no Equador, a copresidente do Painel Científico pela Amazônia, Marielos Peñaclaros, enfatizou que a floresta não apenas sustenta a vida na região amazônica, mas também em todo o planeta. Ela ressaltou que a Amazônia é fundamental para a conexão entre ecossistemas terrestres e aquáticos e para a diversidade cultural das comunidades locais.
“A Amazônia sustenta a vida, não só na região amazônica, mas no planeta como um todo,” afirmou Peñaclaros.
As pesquisadoras alertaram sobre os riscos da devastação da Amazônia, que já afeta as condições climáticas na região. O desmatamento, a mineração e o narcotráfico estão comprometendo a “máquina de chuva”, cujas consequências podem ser desastrosas para o clima global. Marielos destacou que o desmatamento já está resultando em menos chuvas e aumento da temperatura em áreas da Amazônia e em países vizinhos, como a Bolívia.
Julia Valentim também investiga as alterações climáticas na chamada borda sul da Amazônia. Ela está focada em como a escassez hídrica e o aumento das temperaturas afetam a sobrevivência das árvores. “Se o solo não tem água, a árvore começa a sofrer,” explica, referindo-se às “cordas” internas das árvores que se tensionam. Muitas vezes, esse estresse pode levar as árvores à morte.
A região da Amazônia vem enfrentando desafios ainda maiores com o aquecimento global. Em 2024, a floresta sofreu uma das piores secas já registradas, exacerbada pelo fenômeno El Niño. Este evento climático tem se intensificado e está provocando crises de abastecimento de água em cidades ao redor da América do Sul, como Bogotá e Quito. “Precisamos questionar de onde vem a água que abastece tantas cidades latino-americanas,” provocou Peñaclaros durante o evento.
A seca também favorece as queimadas, cujos efeitos impactaram até mesmo regiões fora da Amazônia. Julia Valentim ressaltou que a fumaça dos incêndios chegou a afetar a Região Sudeste do Brasil, revelando a interconexão da floresta com o restante do continente. “O que acontece na Amazônia não fica restrito a ela,” alertou.
Com a previsão de um super El Niño para este ano, as pesquisadoras expressaram preocupações sobre a continuidade da “máquina de chuva”. Se as secas e os incêndios persistirem, a Amazônia pode deixar de ser um sumidouro de carbono e se tornar um emissor, aumentando os problemas relacionados ao aquecimento global. “Estamos diante de uma situação crítica,” finalizou Julia, enfatizando a necessidade de reduzir drasticamente as emissões de gases do efeito estufa e restaurar as áreas degradadas para evitar uma catástrofe ecológica. Se não tomarmos medidas, podemos nos aproximar de um ponto sem retorno.”
A repórter acompanhou o TEDxAmazônia a convite da organização do evento.



