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Um ano após a Operação Contenção, investigação de mortes continua sem respostas

Um ano após a Operação Contenção no Rio de Janeiro, investigações sobre as 121 mortes não apresentam conclusões, gerando indignação na comunidade local

Na madrugada do dia 28 de outubro de 2025, mais de 2,5 mil policiais civis e militares iniciaram uma operação nos complexos de favelas do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro. Essa ação, denominada “Operação Contenção”, se tornaria a mais letal em quatro décadas de intervenções policiais na cidade. O dia trouxe consigo um panorama de confrontos armados, destruição e uma tragédia que chocou o país.

Ao final da operação, o saldo seria devastador: 121 pessoas mortes, incluindo cinco policiais. O número de vítimas fatais aumentou posteriormente quando um policial internado não resistiu aos ferimentos. Imagens de corpos dispostos em uma rua na Vila Cruzeiro correram o mundo, enquanto a polícia alegava que a maioria dos mortos eram traficantes; moradores e familiares denunciavam abusos, torturas e execuções sumárias.

Um ano após os eventos, as investigações sobre as circunstâncias das mortes ainda não chegaram a uma conclusão, mesmo com a atuação das polícias Civil e Federal, além do Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ). As apurações buscam esclarecer não apenas as fatalidades, mas também a conduta dos policiais durante a operação que se configurou como um marco sombrio na história da segurança pública carioca.

Operação Contenção

A Operação Contenção, que tinha como objetivo capturar lideranças criminosas atuantes nos complexos de favelas, foi vista pelo governo do estado como uma estratégia para conter o avanço da facção Comando Vermelho, tentando desarticular sua estrutura financeira e logística.

O coordenador do Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública do MPRJ, promotor Fábio Correa, atestou a singularidade da ação: “É uma situação sui generis, como nunca aconteceu na história da segurança pública do Rio de Janeiro”, afirmou, referindo-se à letalidade da operação.

Investigações em Andamento

Até o momento, o MPRJ já obteve depoimentos de 255 policiais e 61 indivíduos presos durante a operação. Mulheres, esposas e parentes das vítimas também foram contatados; 45 depoimentos foram colhidos. Além disso, o MPRJ acompanha as necropsias realizadas pelo Instituto Médico-Legal (IML) e está analisando mais de 4 mil horas de gravações das câmeras corporais dos policiais, embora a falha nas baterias tenha comprometido o registro completo de todos os eventos

Dois casos se destacam como “atípicos” e geram questionamentos: uma morte por disparo a curta distância e um caso de decapitação. O promotor ressaltou que a falta de perícia no local dificulta a elucidação dos fatos. “É necessário um exame rigoroso sobre a utilização da força letal durante a operação”, destacou.

Excessos nas Ações Policiais

Relatos de execuções e abusos durante a Operação Contenção não são casos isolados. O MPRJ já denunciou 27 policiais por uma gama de crimes, incluindo o desvio de armas e invasões de domicílio. O levantamento feito pelos promotores indicou que 17% das câmeras corporais do Batalhão de Operações Especiais (Bope) foram desligadas deliberadamente durante a operação.

Direitos Humanos e Críticas

Um relatório divulgado pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) em março de 2026 apontou diversos problemas relacionados à operação e à investigação das mortes. O documento questionou as táticas utilizadas pelas forças de segurança, que culminaram em um número desproporcional de mortos entre civis. A CIDH destacou que as circunstâncias demonstram uma séria falha na política de segurança do estado, sugerindo a necessidade de um novo modelo de investigação.

A disparidade entre as mortes de policiais (cinco) e civis (117) levanta dúvidas sobre o uso da força e sua necessidade frente a possíveis confrontos armados. O relatório conclui que as evidências indicam que a força letal foi utilizada como primeiro recurso, o que não se coaduna com um cenário sério de troca de tiros.

Um Ano Depois

Pesquisadores de segurança pública e direitos humanos afirmam que, apesar do alto número de mortes, nenhuma mudança significativa ocorreu no controle territorial da favela após a operação. Para a população local, a lembrança da tragédia ainda se impõe: “O saldo é nulo ou negativo”, opinou Maria Isabel Couto, do Instituto Fogo Cruzado, ao comentar sobre o trauma vivido pela comunidade.

Outra especialista, Carolina Grillo, corroborou a ineficácia da ação, enfatizando que as forças de segurança não apenas falharam em proteger a população, mas também colocaram seus próprios agentes em risco, resultando na morte de policiais.

A Agência Brasil tentou contatar representantes das polícias e da Secretaria de Segurança Pública para obter comentários, mas não obteve retorno.

*Repórter da TV Brasil.

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