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Movimentos sociais no Rio fazem homenagem às vítimas da Operação Contenção

Movimentos sociais homenageiam vítimas da Operação Contenção no Rio, promovendo memória e resistência contra a violência estatal em comunidades afetadas

Na quarta-feira (28), a Praça São Lucas, localizada na Penha, zona norte do Rio de Janeiro, se tornou o palco de uma importante manifestação organizada pela Frente Penha. O ato marca um ano da trágica Operação Contenção, que ocorreu em outubro de 2025 nos complexos da Penha e do Alemão e resultou na morte de 122 pessoas, incluindo cinco policiais civis e militares.

O evento tem como foco não apenas a denúncia da violência estatal, mas também a solidariedade entre familiares das vítimas e a comunidade. O objetivo central é preservar a memória da chacina, evitando que tragédias semelhantes voltem a acontecer e incentivando a mobilização pela paz nas áreas mais afetadas pela violência.

“Nossa comunidade, que é tão violentada, precisa ser vista com olhos de cuidado. Sobretudo as mulheres, crianças e jovens negros que têm seus direitos violados diariamente. Queremos mais cuidado, educação e saúde para a população de favela”, declara Evelin Dias, assistente social e membro da gestão da Frente Penha.

O coletivo enfatiza que a chacina de outubro de 2025 não é um caso isolado, mas um reflexo da realidade enfrentada em diversas favelas do estado do Rio de Janeiro. Um relatório da Iniciativa Direito à Memória e Justiça Racial revela que, entre 2020 e 2025, na Baixada Fluminense, foram realizadas 5.298 operações policiais, resultando em quase 300 mortos, 700 feridos, 5.783 presos e 41 adolescentes apreendidos.

Essa narrativa de violência é intensificada pela perspectiva racial. Segundo o estudo “Pele alvo: entre racismo e letalidade, o amanhã”, elaborado pela Rede de Observatórios e Segurança, em 2025, o Rio contabilizou 800 mortes resultantes de intervenções policiais, sendo 88,6% das vítimas negras, o que equivale a 588 vidas perdidas.

A manifestação resgata a memória de todos que perderam entes queridos em decorrência da violência policial, funcionando como uma ferramenta de resistência e luta por justiça e dignidade.

O evento começa com um almoço comunitário, promovido pela Frente Penha e parcerias locais. Às 14h, tem início a caminhada pelas principais vias do bairro, que será acompanhada pela distribuição de cestas básicas às famílias carentes.

Durante o ato, haverá depoimentos de grupos que atuam em apoio às famílias afetadas pela violência estatal, como as Mães de Maio, Mães de Manguinhos e o Projeto Fênix. Além disso, a programação incluirá performances artísticas de música, dança e poesia, com o intuito de reafirmar a vida e o bem viver nas comunidades. Também serão feitas leituras de cartas de repúdio contra a violência do Estado, além de rodas de capoeira e jongo.

Para as crianças, será criada uma área de recreação com brinquedos infláveis e pula-pula. O evento terminará com a soltura de balões em homenagem aos mortos, apresentações musicais e falas de acolhimento.

MPRJ Investiga a Operação Contenção

O Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) está ativamente investigando a Operação Contenção, ouvindo testemunhas, familiares das vítimas e de pessoas presas durante a ação. Até o momento, foram apresentadas 12 denúncias contra 28 policiais militares envolvidos, por crimes como furto, violação de domicílio e irregularidades no uso de câmeras operacionais.

Essas investigações estão alinhadas com as determinações do Supremo Tribunal Federal (STF) na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) nº 635 e reforçam o papel do MPRJ no controle da atividade policial.

O MPRJ está conduzindo a investigação com seriedade, tendo instaurado um Procedimento Investigatório Criminal (PIC) para assegurar uma análise independente das 122 mortes registradas durante a ação em 28 de outubro de 2025 nos complexos da Penha e do Alemão.

Resultado das Investigações

Até agora, foram coletadas mais de 4 mil horas de gravações de câmeras corporais, 122 laudos médico-legais e 262 depoimentos de 255 pessoas. O material é analisado minuciosamente pelo Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública (Gaesp), buscando confrontar as provas com registros de ocorrência e demais documentos operacionais.

A investigação ainda inclui técnicas tridimensionais para reexaminar as provas, além de um acompanhamento rigoroso da integridade dos dados coletados. O Núcleo de Apoio às Vítimas (NAV/MPRJ) está envolvido no acolhimento dos familiares, oferecendo suporte psicossocial e orientações relevantes.

Denúncias e Irregularidades

Conforme as investigações avançam, foram formalizadas 12 denúncias já aceitas pela Justiça, abrangendo crimes como roubo, furto qualificado e violação de domicílio entre os agentes envolvidos.

A pesquisa também apontou falhas na utilização de câmeras corporais durante a operação, com muitos policiais não utilizando os equipamentos adequadamente, o que prejudicou a documentação necessária para as investigações. Medidas corretivas foram recomendadas pelo procurador-geral de Justiça aos responsáveis pelas forças de segurança para melhorar o uso desses dispositivos, com foco principalmente nas operações mais críticas.

O contexto atual exige um olhar atento e humanizado sobre as favelas, onde a luta por justiça e dignidade é incessante, e a memória das vidas perdidas deve ser sempre lembrada.

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