
Um ano após a trágica Operação Contenção, que resultou na morte de 122 pessoas nos Complexos da Penha e do Alemão, na zona norte do Rio de Janeiro, familiares e ativistas se reuniram nesta quarta-feira (28) em um ato emocionante na Vila Cruzeiro para homenagear as vítimas e exigir justiça. A confeiteira Tauã Brito, mãe de um dos mortos, Wellington Brito, fez um discurso contundente, franqueando as barreiras do luto e clamando por igualdade no tratamento de pessoas afetadas pela violência policial.
“Não existe uma lei para quem mora em um condomínio da Barra da Tijuca e outra para quem mora na favela”, afirmou Tauã, destacando a disparidade no acesso à justiça. Em meio a lembranças dolorosas, ela recordou a luta para tentar salvar seu filho, que culminou em sua morte e em um clamor por investigações sérias sobre as execuções.
“Justiça não pode ser um privilégio de quem tem dinheiro, mora em condomínio ou ocupa cargo de poder”, adicionou. Para Tauã, “a polícia mata por causa do CEP”.
No contexto da violência, Tauã lembrou que, em maio de 2025, a polícia do Rio de Janeiro fez a maior apreensão de armas da história em um condomínio de classe média alta na Barra da Tijuca, onde foram encontradas 240 armas, sem que houvesse uma única morte registrada. “Segurança de verdade é proteger a vida. E é isso que estamos pedindo hoje”, afirmou.
Além das mães que perderam seus filhos, outras vozes se levantaram durante a manifestação. Maria Edvalda Cândida de Souza, mãe de Cleiton Cesar, e Ana Paula Muniz, mãe de Diego dos Santos, também clamaram por justiça e respostas para suas perdas. “Nosso coração está despedaçado por falta de respostas. A Justiça está para prender e não matar”, disse Edvalda, enquanto Ana Paula recordou a alegria do filho e seu desejo de entender as circunstâncias de sua morte.
“Enterrei meu filho um dia antes do aniversário dele”, recordou Ana Paula, ressaltando a angústia em aguardar Laudo de Perícia.
Durante o evento, jovens da comunidade também tomaram a palavra para exigir que o governo vá além de operações policiais, destacando a urgência de políticas públicas eficazes e iniciativas sociais. “Temos sonhos aqui dentro, existe vida e esperança”, afirmou Natan da Silva, pedindo por um diálogo mais respeitoso com a juventude negra da periferia.
Jéssica Soares de Oliveira, moradora da Penha, ressaltou o impacto emocional deixado pela operação nas famílias e nas crianças da comunidade. “Eu tenho um filho de dez anos e mesmo que eu fale com ele os caminhos a serem seguidos, sempre há o medo”, desabafou, expressando a preocupação com o futuro da juventude local.



