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Paraguai vive turbulência política com renúncia do presidente e ascensão do vice em meio a crise bancária

Vice-presidente Pedro Allana assume após renúncia de Santiago Peña, em meio à crise bancária provocada pela falência do Ueno Bank no Paraguai

Em um movimento surpreendente, o presidente do Paraguai, Santiago Peña, anunciou sua renúncia nesta quinta-feira (5), durante uma grave crise financeira e política que teve início com a intervenção do Banco Central Paraguaio (BCP) no Ueno Bank. O anúncio ocorreu em meio a discussões na Câmara dos Deputados sobre a abertura de um processo de impeachment contra o mandatário.

Em sua declaração, Peña, abandonado até mesmo por seu partido, o Partido Colorado, justificou sua decisão como uma ação necessária para garantir a estabilidade do país e proteger as instituições paraguaias. O vice-presidente Pedro Allana é quem assumirá o cargo.

“Estou falando em um dos momentos mais difíceis da minha vida. Acredito que a República deve estar sempre acima de qualquer pessoa ou circunstância”, afirmou Peña em um pronunciamento nas redes sociais. Ele destacou que “a história se encarregará de julgar os acontecimentos que estamos vivenciando” e, por isso, decidiu renunciar à Presidência da República.

Contexto da Crise

A crise começou a se agravar na última terça-feira (3), quando o Ueno Bank, que tem cerca de 2,9 milhões de correntistas — representando aproximadamente 60% da população adulta do Paraguai — foi liquidado, congelando os depósitos de milhares de cidadãos. Em resposta à situação, Carlos Carvallo, presidente do Banco Central, renunciou ao cargo. Ele havia sido dirigente do Ueno até 2023 e se viu no centro das turbulências financeiras.

Protestos ocorrem em diversas partes do país, com cidadãos exigindo a responsabilização dos envolvidos na crise. O Ministério Público pediu a prisão de oito pessoas, incluindo o presidente do Ueno Bank, Juan Manuel Gustale.

Implicações da Renúncia de Peña

Santiago Peña, que até março de 2025 foi acionista do Grupo Vázquez, controlador do Ueno Bank, agora enfrenta críticas severas e um cenário político caótico. Em sua defesa, ele pediu desculpas ao povo paraguaio, afirmando que nunca teve a intenção de trair a confiança depositada em seu governo.

Horácio Cartes, presidente do Partido Colorado e ex-chefe de Estado, declarou que a legenda não irá apoiar práticas associadas a desvio de fundos públicos. Por outro lado, Bachi Núñez, presidente do Congresso paraguaio, havia tentado matizar a crítica a Peña, argumentando que a autonomia do Banco Central o eximiria de responsabilidades diretas.

A deputada Johanna Ortega, do Partido País Solidário (PPS), salientou que os recursos dos aposentados estavam sendo alocados em um banco próximo ao presidente, montando um contexto de conflitos de interesse.

Repercussões Econômicas

A crise não apenas abala a estabilidade política do Paraguai, mas também prejudica sua imagem como destino emergente para investimentos na América do Sul. A Associação de Importadores e Comerciantes do Paraguai (Asimcopar) alertou para uma possível paralisia do mercado comercial, já que duas em cada três transações nas grandes redes varejistas são feitas por meio de contas do Ueno Bank.

Conforme a agência de classificação de risco Moody’s, o caso levanta questões sobre a habilidade das autoridades em gerenciar a queda de um banco significativo, uma vez que a cobertura de depósitos está limitada a apenas 30% no Ueno. Embora o BCP afirme que 97% dos depositantes estão cobertos, a situação ainda apresenta riscos significativos.

Com uma reputação em xeque, o Paraguai agora vê críticas e preocupações sobre o futuro econômico, em um cenário onde o agronegócio do Brasil, que frequentemente elogia a economia paraguaia, pode ser afetado por esta crise. O antropólogo Salvador Schavelzon observa que a percepção positiva entre grupos políticos brasileiros em relação ao Paraguai deriva, em grande parte, da forte presença do agronegócio no país vizinho e das relações políticas estabelecidas.

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