
A escritora, jornalista e roteirista Eliana Alves Cruz, natural de Salvador, sempre sonhou em ser escritora desde os 11 anos. Contudo, foi somente após um período de adoecimento em 2009 e 2010, devido ao estresse provocado pela intensa rotina jornalística, que ela decidiu transformar sua paixão pela literatura em profissão. A decisão resultou no seu primeiro livro de sucesso, Água de Barrela, que narra a história de sua família, descendente de africanos escravizados.
Impulsionada pela conquista do Prêmio Literário Oliveira Silveira, em 2015, promovido pela Fundação Cultural Palmares, Eliana passou a se dedicar integralmente à escrita. Desde então, sua trajetória literária foi marcada por premiações, incluindo dois Jabutis, o mais recente em 2026 com Meridiana, que conta a saga de uma família negra em busca de ascensão social na favela.
Eliana destaca que sua vitória como a primeira mulher negra a receber o Jabuti na categoria Romance é um marco que deveria causar desconforto, não por sua presença, mas pela ausência histórica de outras escritoras negras de renome como Carolina Maria de Jesus e Conceição Evaristo na premiação. Além disso, em 2025, ela foi agraciada com o Prêmio Guimarães Rosa, da Academia Brasileira de Letras, pela obra Meridiana, e no próximo dia 17 de novembro, assumirá uma cadeira na Academia Carioca de Letras.
Temas como racismo e escravidão são constantes em sua obra, que se aproxima de um projeto maior: investigar a vida negra no Brasil. A escritora também apresentou o programa Trilha de Letras, na TV Brasil, e aguarda ansiosamente seu retorno à programação.
Entrevista com Eliana Alves Cruz
Agência Brasil: Como despertou em você a vontade de ser escritora?
Eliana Alves Cruz: Sempre quis ser escritora. Desde os 11 anos tinha isso claro. No entanto, a vida me levou para o jornalismo e eu trabalhei muito, muitas vezes 7 dias por semana, por anos a fio. Em 2009, a exaustão resultou em burnout, e eu percebi que era hora de voltar às minhas origens literárias e escrever Água de Barrela.
Agência Brasil: Como foi a sua pesquisa para Água de Barrela?
Eliana Alves Cruz: A pesquisa foi intensa, envolvendo histórias orais da minha família e documentos antigos. Minha madrinha, que é acumuladora, me ajudou com fotos e cartas de família. Descobri que éramos descendentes de uma família que possuía escravizados e isso me levou a entender nossa história de uma maneira profunda.
Agência Brasil: O que suas experiências de vida trouxeram para sua escrita?
Eliana Alves Cruz: Minha vivência na família e as conversas com minha tia-avó, que possui 105 anos, foram fundamentais. Ela tinha informações valiosas que, quando confrontadas com pesquisas, mostraram que seu relato era muito preciso.
Agência Brasil: Como você vê sua trajetória até aqui e a recepção do público?
Eliana Alves Cruz: A recepção tem sido boa, especialmente com Meridiana, que trata de questões humanas universais. Acredito que essas histórias, apesar de suas especificidades raciais, dialogam com todas as famílias e suas lutas. O reconhecimento também é importante para a visibilidade de novos escritores e autoras.
Agência Brasil: Que mensagem você deixaria para jovens escritores negros?
Eliana Alves Cruz: Não desistam. Escrevam sempre que puderem, busquem tempo para isso. É fundamental ter perseverança e estar aberto à crítica. A luta inicial é contra as nossas próprias inseguranças. Cada um deve buscar a sua voz única, pois todos têm algo a contar.
Eliana continua escrevendo e investigando, planejando novos projetos literários, sempre com o olhar atento às realidades da vida negra no Brasil. Seu trabalho não apenas celebra a história de sua própria família, mas também busca iluminar trajetórias que muitas vezes são ignoradas, em um país que ainda luta contra suas próprias exclusões.



