Evangélicos rejeitam uso eleitoral das igrejas apesar da politização crescente
Pesquisa revela que a maioria dos evangélicos rejeita a politização das igrejas, apesar da crescente presença religiosa na política brasileira

Uma pesquisa realizada pelo Instituto de Estudos da Religião (Iser) em parceria com a Quaest Pesquisa e Consultoria revelou que a maioria dos brasileiros rejeita a influência direta da religião nas decisões eleitorais. A afirmação do pastor Lucas Oliveira, de 30 anos, que atua em uma igreja batista em Nova Iguaçu, resume bem o sentimento: “O voto deveria ser do cidadão e não da religião”.
O estudo, intitulado “Religião e Vida Pública no Brasil”, foi divulgado na semana passada e entrevistou 15 mil pessoas em 412 municípios, envolvendo todas as 27 capitais do país. Os dados mostram que, apesar do crescente protagonismo dos evangélicos nas disputas políticas, 83% dos pesquisados se opõem à indicação de votos por pastores e padres. Além disso, 82% são contrários a discussões políticas durante cultos e missas, e 90% rejeitam a promoção de campanhas eleitorais nesses espaços.
De acordo com a pesquisadora Lívia Reis, do Iser, a influência da religião na política atual se dá mais pela formação de valores e identidades do que pela transferência direta de votos. “É mais correto falar em mediação religiosa do voto do que em transferência de votos”, explica.
A investigação também revelou a crescente politização nos templos desde os anos 1990, que intensificou divisões dentro das comunidades. Segundo Lucas Oliveira, esse cenário gerou traumas nas congregações, com fiéis distantes de líderes religiosos que anteriormente apoiavam candidaturas. “A igreja se tornou um lugar de pessoas machucadas”, afirma ele, mencionando que muitos pastores agora evitam discutir política em seus templos, temendo perder fiéis.
O pastor Moisés Blanco, de 46 anos, da Igreja Batista Peregrina em Natal, observa uma reação no meio evangélico contra essa politização, destacando a importância da liberdade de consciência na tradição protestante. Ele integra a Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, que reúne religiosos preocupados com a instrumentalização dos templos para fins políticos.
A pesquisa “Religião e Vida Pública no Brasil” destacou que os evangélicos representam 29% da população brasileira, com a maioria deles (70%) sendo pentecostais. O catolicismo continua a ser a maior religião do país, abrangendo 50% da população, sendo 31% deles praticantes. Em contrapartida, os católicos também têm demonstrado envolvimento com práticas religiosas adaptadas às novas tecnologias e ao entretenimento religioso.
Embora a pesquisa indique uma rejeição da politização nos templos, ela aponta que a influência religiosa ainda é presente nas redes sociais. A maioria dos entrevistados (66%) utiliza o WhatsApp para a formação de comunidades e grupos religiosos online. A pesquisadora Lívia Reis destaca que as mensagens políticas agora circulam em meios digitais, e não apenas no contexto dos cultos.
Em relação ao comportamento político dos cristãos, a pesquisa identificou que, mesmo evitando nas igrejas a orientação política, os fiéis constroem suas posições com base em repertórios religiosos combinados a fatores sociais, como classe e raça. Mesmo entre evangélicos, existe uma diversidade de opiniões sobre questões morais, como aceitação da diversidade sexual e políticas públicas como vacinação e educação sexual.
Por fim, um recente episódio envolvendo Nossa Senhora Aparecida, que gerou polêmica entre grupos evangélicos e a Justiça Eleitoral, mostra como temas religiosos podem escalar rapidamente parao debate público. O caso ocorreu após a alegação de que alguns grupos vinculados à campanha de Flávio Bolsonaro defendiam a retirada do título de Padroeira do Brasil, o que levou a intervenções judiciais.
A pesquisa e os eventos que a cercam revelam a complexidade da relação entre religião e política no Brasil contemporâneo, indicando que, embora a maioria dos fiéis deseje manter a separação entre essas esferas, as interações continuam ocorrendo de maneiras sutis, particularmente no ambiente digital.



