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Montadoras brasileiras colaboraram com a ditadura militar, revela livro

Livro revela que empresas como Volkswagen apoiaram a ditadura militar, contribuindo com repressão e controle de trabalhadores no Brasil.

Um relatório do Ministério Público de São Paulo (MPSP) revelou que a Volkswagen colaborou amplamente com o regime militar brasileiro, uma denúncia que se baseia em depoimentos da Comissão Nacional da Verdade. A investigação do MPSP, iniciada em 2015, concluiu que a montadora contribuiu para o aparato repressivo com o conhecimento de sua direção.

Em 2017, a Volkswagen contratou o historiador Christopher Kopper para investigar seu papel durante a ditadura. Seu relatório afirmou que a empresa foi “irrestritamente leal ao governo militar” e que atuou na repressão de funcionários, expondo-os a riscos de prisões e torturas.

Além da Volkswagen, outras empresas também foram implicadas no apoio ao regime, como revelado no livro “Repressão Sociedade Anônima”, lançado nesta semana em São Paulo por Eduardo Reina e Maria Angélica Ferrasoli. A obra documenta a contribuição de bancos e indústrias, incluindo as montadoras Mercedes-Benz, General Motors, Scania e Ford, que atuaram em conjunto com as forças de repressão.

A pesquisa foi realizada ao longo de três anos e destaca como trabalhadores do Grande ABC foram observados, perseguidos e até torturados. Reina explica que as empresas financiavam a repressão e que, por meio de registros do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), descobriram que algumas delas financiavam até equipamentos para instalações de repressão.

A vigilância incluía a infiltração de agentes que denunciavam trabalhadores envolvidos em greves, mesmo que não fossem membros de partidos oposicionistas. Os pesquisadores também notaram que as condições de trabalho eram severas, com um alto número de acidentes de trabalho registrados nos anos 1970.

A situação das mulheres trabalhadoras foi ainda mais precária, com relatos de abusos como assédio e controle extremo durante o trabalho, incluindo restrições até para o uso do banheiro.

Uma das descobertas do estudo foi a existência de uma filial do DOPS em São Bernardo do Campo, responsável pela vigilância de trabalhadores e ativistas. Esse compartimento de repressão foi descrito como um controle industrial sobre a sociedade civil, onde ocorriam prisões e torturas.

Os autores ressaltaram a necessidade de uma investigação mais profunda sobre a colaboração empresarial com a ditadura, e ainda há muitos aspectos não explorados, especialmente em relação às empresas públicas. Reina afirma que a participação empresarial foi crucial para a manutenção do regime militar no Brasil.

Apesar das graves acusações, as montadoras citadas no livro não se manifestaram sobre o tema até o fechamento desta edição. Em resposta, a Volkswagen afirmou ter assinado um termo de ajustamento de conduta com o MPSP e destacou que foi a primeira empresa estrangeira a reavaliar sua história durante o regime militar. Scania, Mercedes-Benz, General Motors e Ford também se manifestaram de maneiras que negam vínculos com a repressão.

“Repressão Sociedade Anônima” é uma publicação da Editora Alameda e busca trazer à tona uma narrativa histórica ainda não suficientemente abordada sobre a participação das empresas na ditadura militar brasileira.

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