Moradores da Maré se unem para orientar sobre locais de votação nas eleições
Moradores da Maré organizam mobilização para orientar eleitores sobre novos locais de votação e reduzir a alta abstenção nas eleições


O fotógrafo Marlon Soares, morador do Complexo da Maré, compartilhava um sentimento de frustração e desânimo em relação à sua experiência de votação no primeiro turno das eleições gerais. “Pensei em todo momento em desistir”, declarou ele, fazendo referência à experiência difícil vivida no dia 4 de outubro, data do pleito. Marlon, assim como cerca de 16.907 eleitores da Maré, enfrentou desafios significativos devido à alteração em seu local de votação, uma decisão que causou agitação e mal-estar na comunidade.
Sentindo-se desconectado de sua tradição familiar nas urnas, que sempre fez parte de sua rotina, ele expressou seu incômodo com a mudança. “Votei sempre no mesmo lugar, que era o melhor para evitar filas”, lamentou, enfatizando que experiências anteriores eram muito menos cansativas. No novo local, Marlon se deparou com “filas gigantescas”, esperando mais de duas horas para exercer seu direito.
“Me jogaram para outro bairro. Tive que pegar condução para chegar”, contou ele, claramente frustrado.
Mudanças nos Locais de Votação
A decisão de transferir os locais de votação no Complexo da Maré foi tomada pelo Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ) com o intuito de aumentar a segurança dos eleitores. Este ano, 72 localizações em 20 cidades do estado foram alteradas, afetando aproximadamente 202 mil eleitores, sendo 16.907 apenas da Maré. As novas seções foram estabelecidas fora de áreas de alto risco, controladas por tráfico de drogas e milícias.
Entre as mudanças significativas, os eleitores da Escola Municipal Professor Josué de Castro, por exemplo, agora devem se dirigir ao Centro Educacional Gama E Souza, enquanto os da Escola Municipal Teotônio Vilela vão ao Bonsucesso Futebol Clube.
Com relação ao segundo turno, agendado para o próximo domingo (25), o Rio de Janeiro terá uma única mudança de endereço em Brás de Pina.
Aumento da Abstenção
Dados da Agência Brasil, com base nos Boletins de Urna, revelam que a abstenção nas 41 seções da Maré que tiveram seus endereços alterados atingiu 31,07%, superando a média nacional de 21,08%. Um estudo da Redes da Maré sugere que, embora não se possa afirmar uma relação direta entre as mudanças e a abstenção, as dificuldades de acesso enfrentadas pelos moradores eram notórias.
Antes da votação, o TRE-RJ havia orientado os eleitores a verificarem seus locais de votação, destacando que o transporte público seria gratuito. No entanto, a demanda pelo transporte especial, oferecido àqueles com mobilidade reduzida, foi mínima, conforme informou o TRE.
Mobilização Comunitária
Com o objetivo de engajar os moradores e reduzir a abstenção, a Redes da Maré lançou uma campanha chamada “Esquinas por Direitos”, que acontece entre os dias 20 e 23, para esclarecer os direitos de voto dos cidadãos. Informações sobre a possibilidade de votar, mesmo que não tenham participado do primeiro turno, e dicas sobre a situação do título eleitoral estão sendo amplamente divulgadas nas redes sociais da organização.
A ONG convidou os moradores a não apenas participarem da votação, mas também a fabricarem um diálogo em torno da importância do exercício do voto, lembrando que, embora o transporte gratuito seja oferecido, isso não é suficiente se não chegar até as comunidades afetadas.
O Impacto das Alterações
Dados da Redes da Maré mostraram que, em um período de quatro anos, cerca de 50% dos eleitores da comunidade passaram a votar em novos locais. As implicações são profundas, com impactos nas questões de acessibilidade e na mobilidade urbana, que mudam as rotas dos eleitores, especialmente aqueles que anteriormente votavam nas localidades da própria comunidade.
Lia Manso, analista de Incidência Política da ONG, reforçou a importância do voto como um direito fundamental e afirmou que “a luta por ele não está terminada”, uma afirmação que ecoa especialmente em comunidades como a Maré, onde muitos habitantes enfrentam a precarização não só no acesso à segurança, mas em serviços essenciais como saúde e educação.
“O nosso voto importa, não só porque é um direito individual, mas pela sua capacidade de impactar coletivamente nosso território e a vida de todos”, concluiu.



