Estudantes da UFF iniciam mobilização em prol da virada de Lula
Estudantes da UFF organizam protesto em Niterói após a primeira fase das eleições, expressando preocupação com o resultado e a educação pública


Centenas de estudantes da Universidade Federal Fluminense (UFF) tomaram as ruas de Niterói, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, em protesto contra os resultados do primeiro turno das eleições. O ato, realizado na noite de 5 de outubro, foi organizado por jovens do Centro Acadêmico Evaristo da Veiga e da Associação Atlética Acadêmica Camillo Guerreiro, ambos do curso de direito, e buscou transformar a angústia provocada pelas urnas em mobilização.
Entre gritos de ordem e faixas com mensagens que clamavam pela defesa da educação, o cortejo passou pelo icônico bairro de Icaraí, dirigindo-se à reitoria da universidade antes de retornar à Faculdade de Direito, localizada no Ingá. O protesto surgiu após um resultado eleitoral apertado em que o senador Flávio Bolsonaro (PL) obteve 47% dos votos válidos, enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, agora reeleito, alcançou 45%.
A universitária Valentina Cruz, diretora do Centro Acadêmico de Direito, disse que a proposta de Flávio Bolsonaro de transferir as universidades do Ministério da Educação para o Ministério da Ciência e Tecnologia, que conta com orçamentos significativamente menores, gera sérias preocupações. “A vitória de Flávio claramente significaria cortes em todas as áreas das universidades, da infraestrutura ao auxílio permanência”, alertou.
A reação dos alunos foi influenciada pela experiência negativa durante o governo de Jair Bolsonaro, que resultou em cortes orçamentários no setor. Simão Gabriel Adorno, outro membro do grupo, lembrou que a UFF fez parte das primeiras universidades federais a sofrer os ataques do então governo, que desqualificou as instituições de ensino e seus alunos.
“Nós vimos como o bolsonarismo atacou as universidades na gestão do Jair, como a educação pública estava em risco”, afirmou Simão.
Além do temor sobre os cortes, os estudantes também se opõem à anistia defendida por apoiadores de Jair Bolsonaro, atualmente preso após liderar tentativas de golpe de Estado. “Um ato tão absurdo não pode ser ignorado”, enfatizou Valentina. Flávio Bolsonaro prometeu trazer seu pai de volta ao poder em uma eventual vitória, referência que gerou ainda mais receios entre os manifestantes.
Da noite para o dia
O planejamento do ato começou na mesma noite da apuração, com os universitários decidindo se mobilizar. Inicialmente, a ideia era realizar um encontro entre alunos e professores, mas a adesão cresceu e se transformou em uma passeata com participação maciça.
João Paulo Armando, diretor do centro acadêmico de Direito, destacou a importância da iniciativa, que também apresentou a bandeira do Direito Antifascista, uma ação que remete às eleições anteriores e aos riscos representados pelo atual cenário político.
“Para nós, a situação era absurda, dado o histórico de Flávio contra direitos civis”, afirmou.
Conforme o ato ganhava força, a adesão de outros cursos foi natural, ampliando a mobilização. Cauê Moraes Marins da Silva, diretor do Centro Acadêmico de Relações Internacionais, observou que a multiplicação das vozes em defesa da democracia e dos direitos civis é uma resposta ao crescimento da extrema-direita no país.
Na semana seguinte, as mobilizações se espalharam por diversas cidades do Brasil, com atos em defesa da educação e da democracia. Estudantes tomaram as ruas do centro do Rio de Janeiro e até a Esplanada dos Ministérios em Brasília, clamando pela reversão do resultado eleitoral e apelando por uma maior participação política.
“A eleição de representantes da extrema-direita me deixou assustada”, relatou Isabela Casalini, aluna de desenho industrial da UFF. “Na manifestação do dia 5, sentíamos a revolta”, completou. A jovem acredita que aquele ato foi um divisor de águas, impulsionando um movimento mais sólido entre os estudantes.
À medida que a mobilização avança, a historiadora Carolina Barreto reflete o papel histórico dos estudantes como agentes de mudança. Desde a década de 1960, os estudantes têm sido fundamentais em lutas pela democracia e direitos civis, um legado que continua a se manifestar nas mobilizações atuais.
“Os estudantes estão na vanguarda da luta contra o autoritarismo”, comentou Felipe Santa Cruz, filho do desaparecido político Fernando Santa Cruz. “O ato foi significativo, mostrando como a juventude pode se mobilizar diante da ameaça a um futuro democrático”, concluiu.



