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Feira em Fortaleza propõe políticas de drogas com ênfase em justiça social

Fortaleza discute justiça social nas políticas de drogas em feira que destaca a relação entre consumo, saúde e desigualdade racial

A 2ª edição da feira Febre de Arte, realizada em Fortaleza, destacou a importância de eleger políticos comprometidos com o desenvolvimento de políticas sobre drogas que promovam a justiça social. Durante o evento no Anfiteatro Sérgio Motta, do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, os palestrantes enfatizaram que votar em candidatos com uma visão clara sobre a questão das drogas é essencial para a formulação de propostas efetivas que atendam às necessidades da população.

A médica de família e comunidade Magda Almeida, professora da Universidade Federal do Ceará (UFC), abordou a relação entre políticas de drogas e a vulnerabilidade de populações marginalizadas. Segundo Magda, a ideologia dominante frequentemente reduz a discussão à ideia de que “maconha faz mal”. Ela destacou que negros e pobres são os principais alvos da chamada “guerra às drogas” no Brasil e compartilhou sua experiência com pacientes do gênero feminino em seu consultório, onde observa um uso crescente de pregabalina, um medicamento que poderia ser substituído por alternativas à base de cannabis para tratamentos de condições como epilepsia e fibromialgia.

A pesquisa da Blis Data revelou que mulheres de 45 a 64 anos, em sua maioria empregadas, estão se tornando as principais consumidoras de cannabis medicinal no Brasil, buscando alívio para distúrbios do sono e dor crônica. O uso de cannabis, conforme aponta o 3º Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad III), é crescente, com mais da metade da população admitindo consumo diário em pelo menos duas semanas consecutivas, somando mais de 3,9 milhões de brasileiros.

Durante o evento, Magda criticou a abordagem da indústria farmacêutica ao prescrever doses padrão sem considerar as diferenças individuais, ressaltando a importância de um uso responsável da medicina. “Cannabis não serve para tudo. Nenhum remédio serve para tudo”, afirmou.

Os debates no evento também abordaram a seletividade das polícias e do sistema judicial, que resultam em um encarceramento em massa da população negra. Uma pesquisa do Datafolha indicou que 40,1% dos brasileiros sofreram violência nos 12 meses anteriores à pesquisa, especialmente em áreas dominadas por facções criminosas.

O advogado Italo Coelho, especialista em direito penal, comparou a situação atual da cannabis às barreiras enfrentadas por manifestações culturais brasileiras, como a capoeira e o samba. Ele criticou a hipocrisia do sistema, onde a indústria pode lucrar com a venda de cannabis medicinal enquanto muitos ainda são presos por pequenas quantidades da planta.

Tamára Silva, cofundadora da Marcha da Maconha de Fortaleza, denunciou a abordagem repressiva das forças de segurança, afirmando que isso resulta apenas em mais prisão e violência, enquanto o narcotráfico continua a prosperar. A advogada Bianca Cardial, mediadora do evento, destacou que as prisões geram um impacto econômico significativo nas famílias, com gastos anuais estimados em R$ 4,33 bilhões para suprir as necessidades básicas de pessoas encarceradas.

A Febre de Arte foi organizada pela Agência Liamba 360° e a Adapta Associação Canábica, e contou com a parceria da Auê Feira, que trouxe sua experiência de mais de 100 edições no Ceará. O evento incluiu a Rua das Associações, um espaço dedicado a organizações no Nordeste que assistem pacientes usuários de cannabis medicinal.

*A repórter participou do evento a convite da Agência Liamba 360º.

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