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Escudo das Américas usa combate a cartéis para limitar influência da China

Coalizão liderada pelos EUA busca conter influência chinesa na América Latina ao utilizar a luta contra o narcotráfico como justificativa para ingerências econômicas

A coalizão Escudo das Américas, formada por 15 países latino-americanos sob a liderança dos Estados Unidos, está sendo criticada por especialistas em relações internacionais. Eles afirmam que o projeto utiliza a luta contra os cartéis de drogas como uma justificativa para a interferência dos EUA na América Latina, com o objetivo de limitar a influência econômica da China na região.

Esta avaliação foi destacada por Danilo Enrico Martuscelli, professor de ciência política da Universidade Federal de Uberlândia, que apontou que o Escudo das Américas representa um movimento de “anexação colonial ou imperial” por parte dos Estados Unidos. “Há uma disputa geopolítica de caráter comercial e tecnológico com a China”, afirmou.

Durante a 81ª Assembleia-Geral da ONU, os países da coalizão divulgaram um documento que pretende levar a proposta do Escudo das Américas para discussão na Organização dos Estados Americanos (OEA). O texto também classifica 24 grupos narcotraficantes, entre eles os brasileiros Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV), como “terroristas”.

Martuscelli criticou a política de combate ao narcotráfico adotada durante o segundo mandato de Donald Trump, questionando a coerência da administração ao indultar o ex-presidente de Honduras, Juan Orlando Hernández, condenado por tráfico de drogas. “Uma pessoa que afirma combater o narcotráfico pode liberar um narcotraficante?”, indagou.

O Escudo das Américas, lançado em março deste ano, é composto por EUA, Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru e Trinidad e Tobago.

Robson Valdez, professor de relações internacionais, observou que a iniciativa tem como foco legitimar a presença de tropas americanas na região sob a justificativa de combater o crime organizado. Isso poderia também sinalizar à China que seu relacionamento com os países latino-americanos precisaria ser reavaliado.

O governo brasileiro, que não foi convidado para fazer parte da coalizão, mantém uma postura cautelosa em relação ao Escudo das Américas. Brasília teme que a iniciativa sirva a Washington para impor alinhamentos econômicos que incluam restrições à presença da China na América Latina.

A coalizão justificou sua criação alegando que visa não apenas o combate ao narcotráfico, mas também o “afastamento de ameaças externas”, incluindo influências malignas de fora do Hemisfério Ocidental.

O documento conjunto divulgado nesta semana expressa a intenção de propor uma atuação unificada na OEA para enfrentar as organizações narcoterroristas. O Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR), assinado em 1947, prevê que a agressão a um Estado americano é considerada uma agressão a todos os países da região.

Martuscelli advertiu que a discussão na OEA pode ser uma estratégia para pressionar países que ainda não aderiram ao Escudo, como Brasil, México, Uruguai e Canadá. O governo brasileiro aguardará a apresentação formal da proposta do Escudo à OEA para decidir seu posicionamento.

Além do combate ao narcotráfico, o documento da coalizão menciona medidas de cooperação econômica, que visam proteger cadeias de suprimento de minerais críticos, essenciais para a indústria de tecnologia, defesa e transição energética, áreas em disputa entre EUA e China.

Valdez ressaltou que esse contexto pode ser utilizado para forçar a venda de equipamentos militares dos EUA, limitando a autonomia dos países na escolha de seus fornecedores de armamento.

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