População de baleias-jubarte cresce para 35 mil após três décadas de proteção ambiental
Crescimento da população de baleias-jubarte no Brasil é resultado de três décadas de esforços de conservação e monitoramento ambiental


O catamarã Pegasus I zarpou do cais no centro de Caravelas, Bahia, ao amanhecer, com destino ao arquipélago de Abrolhos, um dos maiores centros de biodiversidade marinha do Brasil.
Prevista para durar cinco horas, a viagem rapidamente se transforma em uma experiência inesquecível: os passageiros não estão apenas navegando, mas “baleiando”, isto é, seguindo as baleias jubarte que anualmente migram da Antártica até Abrolhos para acasalar e dar à luz.
Duas horas após a partida, os tripulantes sintonizam-se com os pontos de melhor observação, prontos para capturar o momento mágico. O borrifo de água no horizonte se torna o sinal esperado da presença de uma baleia, guiando a direção das máquinas fotográficas.
Esse borrifo, ao contrário do que muitos pensam, não é um jato d’água, mas a condensação do vapor exalado pelo animal que se transforma em gotículas ao entrar em contato com o ar frio da superfície.
Quando um borrifo surge, o primeiro avistador alerta o grupo, e todos se voltam para o local, ansiosos por ver um dorso ou, quem sabe, um salto majestoso.
A embarcação aguarda a aparição do animal, enquanto as fotografias se alinham, preparadas para capturar a cauda que identifica cada jubarte, uma espécie de impressão digital única.
Para muitos, ver uma baleia de perto é uma experiência nova, mas os veteranos dessa expedição compartilham da mesma expectativa. Quando as baleias finalmente se exibem, o encantamento é coletivo.
Entre os fotógrafos, destaca-se Enrico Marcovaldi, que, há quase 40 anos, registra as jubartes em Abrolhos. Mesmo após tantas expedições, seus cliques são acompanhados de um bordão animado: “Isso é que é bonito!”.
A expedição faz parte do trabalho do Instituto Baleia Jubarte, que monitora a passagem das jubartes pelo Brasil, realizando estimativas populacionais e investigando seus comportamentos.
Todas as jubartes avistadas são catalogadas e amostras de pele e gordura são coletadas para biópsias, utilizando uma flecha lançada por uma balestra. Para se ter uma ideia, uma jubarte adulta pode medir mais de 10 metros e pesar cerca de 30 toneladas.
História das Jubartes
Historicamente, as jubartes foram caçadas desde os tempos coloniais do Brasil, principalmente pela gordura, utilizada como combustível. A caça foi proibida apenas em 1987, resultando na inclusão da espécie na lista de ameaçados de extinção.
No ano seguinte, durante a criação do Parque Marinho de Abrolhos, uma população sobrevivente foi descoberta. Marcovaldi, que participou dessa descoberta, fundou, junto com a bióloga Márcia Engel, o Projeto Baleia Jubarte para estudar e proteger as jubartes.
“Na primeira estimativa populacional, nos anos 90, estimamos de 1.500 a 2.000 baleias. Hoje, superamos as 35.000. O sentimento é de dever cumprido, a população se recuperou de verdade”, celebra Marcovaldi.
O Instituto foi formalmente constituído em 1996, com apoio da Petrobras, que continua sendo o principal financiador das atividades.
Com isso, o Instituto ampliou sua atuação no Brasil, onde as jubartes habitam.
A espécie foi removida da lista de ameaçados em 2014. Os registros feitos pelo Instituto permitiram identificar mais de 10.000 jubartes e contribuíram para a contagem populacional através de uma plataforma colaborativa que usa inteligência artificial.
Atualmente, a estimativa populacional é realizada por sobrevoos ao longo da costa do Brasil, com o recorde de mais de 35.000 jubartes contado na última estimativa, em 2022. Para este ano, o número deve ser um pouco inferior.
Marcovaldi destaca que essas variações não indicam um retrocesso na conservação: as temporadas de avistamento têm ciclos, com anos em que observam-se mais jubartes, e outros em que menos.
Desafios das Jubartes
No entanto, as jubartes enfrentam desafios atualmente, como a poluição e as mudanças climáticas. Eduardo Camargo destaca que a principal missão é “harmonizar a atividade humana com a conservação das jubartes e outros cetáceos.”
“O lixo afeta todo o oceano, coberto de microplásticos. Já as mudanças climáticas impactam a disponibilidade de alimento que influencia todo o ciclo de vida dos animais”, complementa Camargo.
Pesquisas em Andamento
A produção de conhecimento científico sobre as jubartes é o foco do Instituto, especialmente após décadas de caça que deixaram lacunas de dados sobre os animais.
O diretor de Pesquisas, Milton Marcondes, também um dos defensores da proibição da caça em 1987, destaca: “Minha vocação é trabalhar com baleias”.
Mais de 700 alunos de graduação já participaram de estágios no Instituto, contribuindo com coletas de dados e ações educativas. Além disso, cerca de 60 projetos de mestrado e doutorado foram concluídos em parceria com o Instituto, resultando em mais de 130 artigos científicos publicados.
Uma das descobertas significativas foi que o Brasil serve como área de acasalamento e parto, enquanto as águas ao redor da Antártica são as zonas de alimentação das jubartes.
Ameaças e Oportunidades
Além de compartilhar sua vasta base de dados, o Instituto acolhe estudantes interessados em pesquisas de campo que investigam os efeitos das mudanças climáticas sobre as jubartes.
A bióloga Laura Aguiar, da UFSC, analisa imagens de drone desde 2018 para mensurar a saúde das baleias, enquanto Bruna Baleeiro, também mestranda, examina registros fotográficos para atualizar a estimativa de abundância das jubartes.
“A temperatura na Antártica influencia a quantidade de krill, afetando assim a abundância e a sobrevivência das baleias.”
Outra linha de pesquisa avalia os comportamentos das baleias para entender os impactos das ações humanas. Bianca Righi, durante seu doutorado, observou um comportamento inédito de uma fêmea protegendo seu filhote de machos que tentavam se aproximar para acasalar.
O Instituto Baleia Jubarte também desempenha um papel importante na formulação de políticas públicas para a conservação marinha.
“Guardamos a história dos últimos 30 anos, e a nossa expertise é reconhecida”, afirma Camargo.
O instituto assessora ainda empresas para minimizar impactos ambientais. Um exemplo é a modificação da rota do Terminal Aquaviário de São Sebastião, feito com base em estudos das jubartes.
“Com o conhecimento do monitoramento, o traçado foi ajustado para evitar a rota de migração das baleias”, explica Gregório Maciel, gerente de Projetos Ambientais da Petrobras.
A Petrobras tem sido o principal patrocinador do Instituto desde sua criação, com investimentos que ultrapassam R$ 30 milhões para o ciclo atual de quatro anos, dentro de um comprometimento anual de aproximadamente R$ 450 milhões para proyectos ambientais.
“Estamos prestando um serviço público enquanto trabalhamos com aquilo que nos apaixona”, conclui Camargo.
*A repórter e a fotógrafa acompanharam a expedição a convite da Petrobras



