Brasil chega ao top 3 de mortes por COVID-19
Nessa quinta, o número de óbitos registrados teve um novo recorde

Mais uma vez o Brasil superou o número de mortes registradas por coronavírus em um só dia. Ao todo foram 1473 pessoas que perderam a vida. E este é o terceiro recorde seguido só nessa semana. Antes os números estavam em 1349 na quarta e 1262 na terça.
No intervalo de apenas um mês, o Brasil multiplicou por cinco o seu total de mortes por COVID-19, em mais uma marca dramática atingida pela pandemia no país. Há um mês, o relatório diário da Organização da Saúde (OMS) mostrava que o Brasil tinha 5,9 mil mortes pela doença em 2 de maio.
Outra marca trágica atingida pelo país nesta quinta-feira foi ter passado a Itália e ter se tornado o terceiro país no mundo com mais mortos pelo coronavírus, atrás apenas dos Estados Unidos e Reino Unido. Em número de casos, o Brasil está em segundo lugar, atrás dos EUA, como mostra um painel global da universidade Johns Hopkins.
No momento em que muitos Estados e municípios brasileiros já discutem e implementam medidas de flexibilização da quarentena, os dados globais da universidade mostram que a curva de contágio do Brasil continua ascendente, diferentemente de outros países europeus e asiáticos em processo de flexibilização, cujos dados parecem indicar, no momento, uma estabilização no número de casos.
É verdade que muitos países também estão seguindo, ou já seguiram, o caminho da flexibilização das medidas de isolamento. Mas a grande maioria desses países só adotou medidas de flexibilização depois que o número de casos novos e mortes começou a cair, explica o epidemiologista Antonio Moura da Silva, professor do departamento de Saúde Pública da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) — países como China, Alemanha, Reino Unido, Itália, Espanha e França.
O Brasil está flexibilizando a quarentena enquanto os números ainda estão aumentando e sem saber se a pandemia já chegou ao pico. “É uma insanidade”, diz Silva.

Brasil não atende critérios da OMS
A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda seis critérios para flexibilizar o isolamento social. Mas o Brasil ainda não atende alguns deles.
Os novos casos devem ser esporádicos e concentrados em certos lugares — e em um nível que não sobrecarregue o sistema de saúde. Um país também deve fazer testes em massa para identificar os casos e seus contatos, e isolar e tratar a todos.
É preciso proteger especialmente locais mais vulneráveis a surtos, como favelas, por exemplo, e tomar medidas para reduzir o risco de transmissão do vírus em locais de trabalho. E também tentar impedir a importação e exportação de casos e garantir que a população esteja consciente e comprometida com as ações de combate à pandemia.
Taxa de contágio está acima do que deveria
O epidemiologista Antonio Moura da Silva diz que alguns objetivos deveriam ser atingidos antes de o país flexibilizar o distanciamento social. Um deles é ter uma ocupação dos leitos de unidades de tratamento intensivo (UTI) de no máximo 70%, para haver alguma folga que dê conta de um aumento súbito de novas infecções.
Outro é a curva de novos casos estar caindo há 14 dias, tempo suficiente para saber essa tendência é temporária ou não. E uma taxa de contágio (R0) abaixo de 1, também por duas semanas. Esse índice, o R0, indica quantas pessoas alguém que tem o vírus pode infectar e é fundamental porque, quando fica menor do que 1, o número de novos casos para de crescer e começa a cair. O isolamento social é uma as formas mais eficazes de conseguir isso.
No entanto, a taxa de todos os Estados brasileiros, calculadas pela Universidade Johns Hopkins, ainda estão acima deste patamar, aponta Fernando Spilki, presidente da Sociedade Brasileira de Virologia (SBV). “A Alemanha adotou uma taxa de 0,7 para a maioria das regiões que fizeram a reabertura, por exemplo. Aqui, não estamos usando esse critério”, diz Spilki. Para o virologista, o parâmetro mais comum no Brasil é a lotação das UTIs, mas isso dá só uma visão de curto prazo da pandemia e não permite saber se ela está sob controle. “A gente não consegue saber o que vai acontecer na próxima semana ou daqui a 15 dias. A taxa de contágio permite fazer isso.”
Pandemia mais longa e com mais prejuízos
O desencontro das mensagens dos governos estaduais e municipais, que implantaram as quarentenas, e o governo federal, que foi contra essas medidas, prejudicaram a adesão ao isolamento no Brasil, que não foi suficiente para reduzir a taxa de contágio a índices satisfatórios.
Os casos continuaram a subir. Mas também aumentou a pressão popular para o retorno a normalidade com reabertura do comércio — sem nunca ter fechado de fato. Por isso, os Estados e municípios agora cedem a esses apelos, avaliam os especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, mesmo em condições bem desfavoráveis, e isso deve agravar ainda mais os impactos da pandemia.
O surto no Brasil, que já é mais longo do que o de outros países, deve se prolongar ainda mais, diz Fernando Spilki. “Isso vai gerar um prejuízo econômico ainda maior, porque vamos reabrir, ter novos surtos e ter de fechar tudo outra vez onde isso acontecer”, afirma o presidente da SBV. “É uma aposta e que provavelmente vai dar errado, e o número de novos casos e mortes vai aumentar”, diz Antonio Moura da Silva, da UFMA.
O médico Bharat Pankhania, professor palestrante da Escola de Medicina da Universidade de Exeter, no Reino Unido, especializado em controle de doenças infecciosas, critica a opção de reabrir a economia no Brasil enquanto o vírus ainda circula amplamente.
“As pessoas vão ser infectadas, e os governantes serão responsáveis pelos brasileiros que vão morrer por causa disso”, diz Pankhania, que defende que quem puder se mantenha isolado. “As pessoas podem tomar precauções individualmente, mas essa responsabilidade também é dos empregadores. É uma decisão pode ser feita em todos os níveis.”
Mesmo assim, reconhece o médico, a parcela da população mais pobre fica mais vulnerável: “Assim como aqueles que seguem um líder que está errado cegamente”. Todos os Estados brasileiros já têm mortes pela COVID-19 confirmadas. Lideram em números de casos e óbitos São Paulo (129.200 casos e 8.560 mortos), Rio de Janeiro (60.932 casos e 6.327 mortos) e Ceará (59.795 casos e 3.813 mortos).



