COP17 adia mais uma vez acordo global contra secas
Negociações na COP17 não lograram acordo global para combate às secas; discussões sobre o tema deverão ser adiadas até a próxima conferência em 2028

A 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17), que ocorre em Ulaanbaatar, Mongólia, está prestes a encerrar seus trabalhos sem a criação de um regime global para enfrentar as secas. Embora haja otimismo nas declarações oficiais, negociadores revelam que a possibilidade de um acordo é remota. O evento termina oficialmente nesta sexta-feira (28).
Estados Unidos e União Europeia, junto com outros países sul-americanos como Argentina, Chile e Paraguai, estão liderando a oposição à proposta. O Brasil, que defende a criação de um regime específico para lidar com as secas, acredita que a falta de consenso significa que o melhor a fazer é manter o tema na agenda para futuras discussões na COP18, prevista para 2028 no Egito.
O que deve ser apresentado ao final da conferência é uma decisão procedimental que adia as discussões sobre o tema. A resistência contra a proposta é motivada, em parte, por preocupações financeiras e geopolíticas. Os países desenvolvidos, em especial os EUA, preferem uma adesão voluntária a compromissos formais e não estão dispostos a se comprometer com ajudas financeiras em meio a crises internas de seca.
Apesar das dificuldades, algumas iniciativas paralelas estão em andamento. A Aliança de Riad para Resiliência Global à Seca anunciou um fundo de US$ 150 milhões, destinado a apoiar 70 países em desenvolvimento. Além disso, foi criado o Fundo de Investimento para Resiliência à Seca, que busca mobilizar até US$ 400 milhões. Este fundo visa atrair investimentos privados para enfrentar o fenômeno de maneira mais eficaz.
Andrea Meza Murillo, secretária executiva adjunta da UNCCD, expressou esperança na continuidade das negociações, apesar dos desafios. “Estamos em um momento em que o túnel está escuro, mas sempre há uma luz no fim dele”, disse, ressaltando a importância de uma resposta unificada ao problema crescente das secas.
Relatórios da UNCCD apontam que a frequência e a intensidade das secas aumentaram quase 30% desde 2000. Daniel Tsegai, coordenador do grupo de trabalho sobre seca da UNCCD, alerta que a seca deixou de ser um problema pontual e exige políticas permanentes para gestão de riscos. “Precisamos mudar esse paradigma da gestão de crises para a gestão preventiva de riscos”, defendeu.
A COP17 também apresentou a Fase 2 do Observatório Internacional de Resiliência à Seca, uma plataforma desenvolvida para ajudar países a monitorar e adaptar suas políticas às condições de seca, utilizando ferramentas de inteligência artificial para interpretar dados complexos.
As discussões em Ulaanbaatar destacam a urgência da questão, acentuada pela interconexão global dos impactos climáticos. Especialistas concordam que a preparação e a resposta a desastres devem ocorrer antes que os eventos extremos se materializem.
* O repórter viajou para a Mongólia a convite da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD), após seleção entre jornalistas de diversos continentes.



