Instalação O Barco no Sesc Pompeia retrata o tráfico de africanos escravizados
Instalação de Grada Kilomba no Sesc Pompeia denuncia a história do tráfico de africanos escravizados e provoca reflexão sobre memória e violência histórica

A instalação O Barco, da artista portuguesa Grada Kilomba, será inaugurada nesta terça-feira (22) no Sesc Pompeia, em São Paulo. A obra faz uma reflexão sobre o tráfico transatlântico de africanos escravizados, considerado pela Assembleia Geral da ONU como o crime mais grave já praticado contra a humanidade.
Entre os séculos XVI e XIX, milhões de africanos foram sequestrados e vendidos como mercadorias, com o Brasil sendo o principal destino. Estima-se que mais de 4,8 milhões de pessoas tenham atravessado o Oceano Atlântico em condições desumanas, principalmente através dos navios negreiros.
A artista propõe uma questão provocativa: “O que o fundo do oceano nos diria se fosse esvaziado de água hoje?” Kilomba busca destacar a narrativa glorificada que muitos monumentos contam sobre a colonização, questionando o que essa “glória” realmente esconde.
“Se esvaziássemos a água, o oceano e a terra em si iriam revelar uma série de trilhões de passagens de corpos humanos, não só no passado, mas no presente, em uma repetição da violência cíclica”, afirma Kilomba.
A obra é composta por 134 blocos de madeira queimada, dispostos em um espaço de 220 metros quadrados, formando a silhueta do fundo de uma grande embarcação. Essa instalação visa revelar a arquitetura dos porões dos navios que transportavam os escravizados, trazendo à tona a brutalidade da escravização.
Além da instalação, que utiliza elementos de pesquisa sobre botânica, história e travessias, Kilomba também se inspira na tragédia grega Antígona, que explora temas como memória e esquecimento em torno de quem merece ser lembrado ou celebrado.
“Este barco também traz à tona a atualidade das migrações forçadas. Múltiplos barcos atualmente continuam a atravessar as águas globais para fugir de genocídios, massacres e crises climáticas”, completa a artista.
O Barco foi adaptado para caber no espaço do Sesc Pompeia e, apesar de não estar integralmente exposto, conta com 18 blocos que trazem um poema da própria artista, traduzido para diversas línguas, incluindo iorubá e árabe. Os versos refletem a relação entre memória e esquecimento.
Kilomba destaca que a obra busca iluminar a parte invisível da história da escravidão que permanece apagada na sociedade contemporânea. “Quando a história não é contada devidamente, a sua barbárie repete-se”, alerta.
Esta é a primeira vez que O Barco é exibido em São Paulo, após passar pelo Instituto Inhotim, em Minas Gerais. A instalação estará em cartaz até o dia 25 de outubro, e pode ser visitada junto a outras obras de Kilomba no espaço.



