
O Ministério Público de São Paulo (MPSP) iniciará uma investigação sobre o envolvimento de empresas com a ditadura militar brasileira, com foco na montadora Volkswagen. A decisão, tomada em 2015, foi baseada em depoimentos da Comissão Nacional da Verdade. Seis anos depois, um relatório divulgado pelo MPSP confirmou que a Volkswagen “contribuiu intensamente com o aparato repressivo”, com o conhecimento da direção da empresa.
Em 2017, a Volkswagen contratou o historiador Christopher Kopper, da Universidade de Bielefeld, para investigar seu papel durante o regime militar. O estudo revelou que a montadora expressou lealdade ao governo militar e colaborou ativamente com seus objetivos, incluindo a submissão de funcionários a riscos de prisão e tortura.
Além da Volkswagen, um novo livro lançado em São Paulo, intitulado Repressão Sociedade Anônima, destaca a contribuição de várias empresas, incluindo bancos e montadoras, para manter a ditadura. Escrito por Eduardo Reina e Maria Angélica Ferrasoli, o livro é resultado de três anos de pesquisa sobre como trabalhadores, especialmente na região do Grande ABC Paulista, enfrentaram perseguições, demissões e torturas devido a esse vínculo entre empresas e o aparato repressivo.
Os autores focaram em cinco montadoras: Mercedes-Benz, Volkswagen, General Motors, Scania e Ford. Em entrevistas, Reina explicou que as empresas financiaram a repressão, revelando que registros do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) mostram financiamento de equipamentos repressivos, como de um estande de tiro. Arapongas, agentes infiltrados nas fábricas, também eram utilizados para monitorar e delatar trabalhadores.
As mulheres trabalhadoras enfrentavam condições ainda mais adversas, sendo controladas rigidamente em seus horários e submetidas a humilhações, como o controle do uso de papel higiênico. Ferrasoli compartilhou relatos de mulheres que eram vigiadas até mesmo quando usavam o banheiro.
O livro também revela a existência de uma filial do DOPS em São Bernardo do Campo, que controlava e vigiava os trabalhadores da região, prisões e torturas eram comuns na unidade, que ficava próxima ao sindicato da categoria.
As descobertas ressaltam a necessidade de mais pesquisas sobre a colaboração empresarial durante a ditadura militar, especialmente sobre empresas públicas. Ferrasoli afirmou que, embora a ditadura poderia ter sobrevivido sem apoio empresarial, a colaboração aumentou sua eficácia e duração.
A Agência Brasil entrou em contato com as montadoras citadas para obter posicionamentos sobre o conteúdo do livro, mas até o momento não obteve respostas. A Volkswagen enviou uma nota informando que assinou um termo de ajustamento de conduta e foi a primeira empresa estrangeira a revisar sua história no Brasil durante o regime militar. Scania e Mercedes-Benz repudiaram violações de direitos humanos, enquanto GM e Ford não se manifestaram.
O livro Repressão Sociedade Anônima é uma publicação da Editora Alameda.



