Escudo das Américas usa combate ao narcotráfico para conter China
Coalizão liderada pelos EUA busca usar a luta contra o narcotráfico para limitar a influência econômica da China na América Latina


A coalizão Escudo das Américas, liderada pelos Estados Unidos e composta por 14 países latino-americanos, foi criada com o objetivo de combater o narcotráfico na região. No entanto, especialistas em relações internacionais alertam que a iniciativa pode ser um pretexto para interferência dos EUA na América Latina e para conter a influência econômica da China. A análise é do professor Danilo Enrico Martuscelli, da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), que descreve o Escudo das Américas como uma tentativa de “anexação colonial” dos países da região.
Durante a 81ª Assembleia-Geral da ONU, em Nova York, a coalizão anunciou que buscará levar a proposta do Escudo das Américas à Organização dos Estados Americanos (OEA). No documento divulgado, os países também concordaram em classificar 24 grupos narcotraficantes, incluindo o Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV), como “terroristas”.
Martuscelli criticou a política de combate ao narcotráfico do ex-presidente Donald Trump, lembrando que, mesmo adotando uma postura agressiva contra os cartéis, Trump concedeu indulto ao ex-presidente de Honduras, Juan Orlando Hernández, que havia sido condenado por envolvimento no tráfico de drogas. “Como alguém que quer combater o narcotráfico pode liberar um narcotraficante?”, questionou o especialista.
O Escudo das Américas, criado em março, é formado pelos Estados Unidos, Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru e Trinidad e Tobago. O professor Robson Valdez, do Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), destacou que a coalizão pode legitimar a presença militar dos EUA na região sob a justificativa de combater o crime organizado.
O Brasil, sem ter sido convidado a integrar a iniciativa, demonstra cautela em relação ao Escudo das Américas, enquanto mantém suas próprias medidas de cooperação para enfrentar o crime organizado. O governo brasileiro receia que a coalizão sirva como uma ferramenta para os EUA obterem alinhamentos automáticos em questões econômicas, limitando a presença da China na América Latina.
No documento recente, a coalizão propôs uma atuação conjunta para combater o narcotráfico na OEA, com a intenção de adotar uma resolução que promova ações coletivas contra organizações narcoterroristas, embasadas no Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR). Este tratado, assinado durante a Guerra Fria, caracteriza que a agressão a um Estado americano é considerada uma agressão a todos os demais Estados da região.
Martuscelli também acredita que a leva de propostas à OEA visa pressionar países que ainda não aderiram à proposta, como Brasil, México, Uruguai e Canadá. O Brasil espera a apresentação da proposta do Escudo na OEA para que possa decidir se apoiará ou rejeitará uma eventual resolução sobre o tema.
O documento divulgado na ONU combina o combate ao narcotráfico com propostas de “cooperação econômica”, como a proteção das cadeias de suprimento de minerais críticos, essenciais para a tecnologia, defesa e transição energética. Valdez alerta que isso pode ser usado para forçar a venda de equipamentos militares dos EUA, limitando a autonomia dos países em relação aos seus parceiros de armamento.



