
Uma pesquisa realizada pelo Instituto Update, que analisou 12 candidaturas à Presidência da República, revelou que as propostas direcionadas às mulheres estão presentes em diversos campos políticos, centrando-se principalmente em quatro temas: violência, saúde e cuidado. No entanto, questões relacionadas à participação política e à presença feminina em espaços de poder têm recebido menos destaque.
“Os programas reconhecem problemas que afetam diretamente as mulheres, mas avançam menos quando se trata de incorporá-las como sujeito de decisão e de considerar suas experiências cotidianas de forma mais ampla”, afirmou Carol Althaller, diretora executiva do Instituto Update.
A análise considerou apenas propostas explicitamente voltadas às mulheres, não contabilizando automaticamente políticas universais de segurança, emprego, saúde, educação ou transporte. Althaller também destacou a importância de diferenciar a presença de um tema de propostas estruturadas. “Em vários casos, há referências relevantes, mas com pouco detalhamento sobre implementação, metas e instrumentos”, explicou.
No que diz respeito à participação política, a pesquisa concluiu que as mulheres figuram mais como destinatárias de políticas do que como participantes no poder. Em um levantamento anterior, 72% das entrevistadas afirmaram ser favoráveis ao aumento da representação feminina em cargos políticos. No entanto, apenas um candidato apresentou propostas específicas para a participação político-eleitoral feminina, como o combate à violência política de gênero e formação de candidatas.
A pesquisa também constatou que, quando ampliado o critério para incluir a presença feminina em posições de liderança, um segundo candidato se destacou ao sugerir o incentivo à liderança feminina e o compromisso de indicar mulheres para vagas no Supremo Tribunal Federal.
Os dados mostraram que 70% das mulheres acreditam que possuem melhores ideias e soluções para a segurança pública, revelando o valor que elas atribuem às experiências de outras mulheres. Entretanto, Althaller observou uma lacuna entre esse reconhecimento e a presença desses aspectos nos programas eleitorais.
Em relação à violência contra as mulheres, 75% dos planos analisados incluem propostas explícitas sobre o tema. Embora essa seja a agenda mais disseminada, as propostas variam. Elas abrangem desde a ampliação de redes de proteção até o endurecimento penal, mas tendem a ignorar a insegurança que afeta a circulação das mulheres no espaço público. Apenas um candidato relacionou a segurança feminina à mobilidade e ao transporte urbano.
Estudos anteriores indicaram que 79% das mulheres sentem medo ao sair à noite e 31,4% evitaram transporte público por insegurança. Althaller destacou que, nas discussões qualitativas, surgem aspectos como iluminação e a necessidade de fortalecer redes comunitárias, aspectos que muitas vezes ficam fora da agenda, que foca apenas em policiamento e punição.
A autonomia econômica foi outro tema observado, com 58% dos planos apresentando propostas sobre trabalho e independência financeira das mulheres. Embora exista uma convergência sobre a importância desse tema, as abordagens variam, com algumas focando em salário igualitário e outras em acesso ao crédito e empreendedorismo.
Além disso, 58% dos planos analisados mencionam creches ou políticas de cuidado, destacando a relação entre cuidados e a vida econômica das mulheres. Alguns candidatos tratam o cuidado como uma infraestrutura necessária para a participação das mulheres no mercado de trabalho, enquanto outros vinculam o tema à maternidade e responsabilidades familiares.
O Instituto Update concluiu que, embora haja um reconhecimento da importância do cuidado para a autonomia das mulheres, existem divergências sobre quem deve assumir essa responsabilidade e o papel do Estado. Essas diferenças ajudam a explicar a variação nas propostas políticas, mesmo quando a mesma terminologia é utilizada.



