Esperança contra a AIDS é criada no Brasil
Depois de uma vacina experimental, um brasileiro está 17 meses sem o vírus HIV

Desde que os primeiros casos de AIDS apareceram no mundo, há cerca de 40 anos atrás, cientistas vem lutando e estudando dia após dia para tentar encontrar a cura e a vacina eficaz contra a doença. Os avanços da medicina foram obtidos, mas ainda não há um remédio que garanta a cura total contra o vírus HIV. Mas nessa semana surgiu uma notícia que é considerada uma grande esperança.
A vacina foi desenvolvida no Brasil e tem como base um supertratamento que utiliza uma combinação de diferentes remédios com uma vacina produzida com DNA do próprio paciente. Essa vacina “inteligente” ensina o sistema imunológico a localizar e eliminar o HIV em regiões do corpo em que medicações já conhecidas não conseguem atuar de forma eficaz.
Segundo informações preliminares, um homem que vivia há sete anos com o vírus recebeu essa combinação de medicações e está há 17 meses sem sinal dele no organismo após a interrupção da terapia inovadora. Como os resultados detalhados estão sob embargo até a apresentação do trabalho na Conferência Internacional de Aids, nesta terça-feira, a expectativa entre outros pesquisadores e profissionais envolvidos no combate à aids é saber até que ponto esse sucesso obtido a partir de uma pesquisa da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) poderá ser repetido com outros homens e mulheres.
“Há alguns anos, uma pessoa reverteu a sorologia (eliminou o vírus) nos Estados Unidos, mas depois se viu que foi algo único, talvez por alguma característica individual. Crianças que nascem com o vírus por transmissão da mãe também conseguem eliminá-lo. A expectativa é para saber se o resultado da pesquisa pode ser aplicado em outras pessoas, e se não há o risco de uma recidiva (reaparecimento), como ocorre com o câncer, por exemplo. Aí poderemos falar de uma cura. De qualquer forma, a notícia é ótima”, analisa a coordenadora-executiva do Fórum ONG/Aids do Rio Grande do Sul, que reúne 52 entidades ligadas ao tema, Márcia Leão.
A esperança é grande porque se trata do primeiro tratamento a obter esse tipo de resultado além de outros 2 casos recentes que envolveram transplante de medula — estratégia mais difícil e com mais impactos colaterais. O que se sabe até o momento é que a fórmula desenvolvida no Brasil sob a coordenação do pesquisador Ricardo Sobhie Diaz atua em duas frentes principais.
Uma delas, segundo relatou em julho de 2018 a revista científica da Unifesp Entreteses, combina medicamentos que matam o vírus no momento da replicação e eliminam as células em que o HIV fica “adormecido”. A outra é uma vacina que consegue “ensinar” o organismo do paciente a encontrar as células infectadas e destruí-las, varrendo o HIV do corpo.
Chefe do Serviço de Infectologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre e amigo de Diaz, o infectologista Eduardo Sprinz revela que a pesquisa paulista dividiu os 30 voluntários em subgrupos que receberam diferentes variações do tratamento.
“O grupo de seis pessoas que apresentou os resultados mais promissores contou com uma combinação de uma série de medicações com a vacina. Um dos participantes não apresentou mais sinal do vírus, mas não sei da situação dos demais, afirma Sprinz.
Essas e outras questões deverão ser respondidas a partir desta terça-feira. Uma próxima etapa da pesquisa deverá selecionar 60 pessoas e incluir mulheres (até então, apenas homens participaram). Márcia Leão ressalta que, apesar das boas notícias, elas não devem servir como desculpa para reduzir cuidados como fazer sexo sem proteção:
— É fundamental que as pessoas sigam tomando todas as precauções para não se contaminar.
Confira, a seguir, um resumo do que se sabe até o momento sobre como funciona a receita brasileira que pode revolucionar o combate à aids no mundo.
A estratégia brasileira para vencer o HIV
- Foram selecionados 30 voluntários com níveis já baixos de HIV no organismo por estarem sob tratamento com o tradicional “coquetel” de remédios que combate o vírus da aids. Nessa condição, em que o HIV é considerado “indetectável”, as pessoas não são mais transmissoras, mas ainda estão com ele no organismo.
- Os participantes foram divididos em subgrupos que receberam diferentes versões do tratamento. A mais promissora mantinha a administração do “coquetel” tradicional contra o HIV somada a outras substâncias.
- O grupo do paciente que se livrou do HIV recebeu mais dois antirretrovirais (que combatem o vírus): o dolutegravir (droga mais forte disponível no mercado) e o maraviroc — substância que força o vírus “escondido” em diferentes partes do organismo a aparecer.
- Além disso, foram administradas outras duas substâncias que potencializam o efeito dos medicamentos: a nicotinamida, que impede o HIV de se esconder nas células, e a auranofina — antirreumático que deixou de ser usado há alguns anos mas se mostrou capaz de encontrar células infectadas e levá-las a “cometer suicídio”.
- Ainda faltava encontrar algo que ajudasse o sistema imunológico a combater o vírus. Foi desenvolvida uma vacina que utiliza DNA do próprio paciente para “ensinar” o organismo a encontrar células infectadas remanescentes e eliminar completamente o HIV.
- A vacina faz com que células de defesa do corpo aprendam a encontrar e matar o HIV em regiões do corpo chamadas “santuários”, como cérebro, intestinos, ovários e testículos, em que os antirretrovirais não conseguem chegar ou não atuam de maneira eficiente
Fonte: Unifesp



